Causas - São Paulo São

São Paulo São Causas

Uma ideia simples que serve como um cartão de visita aos heróis invisíveis das ruas, responsáveis por quase 90% de todo o lixo reciclado no Brasil. O aplicativo Cataki, que conecta catadores independentes com cidadãos e empresas que querem descartar materiais recicláveis, venceu nesta terça-feira (13/02) o prêmio de inovação do fórum Netexplo, concedido a projetos de tecnologia com maior impacto social e nos negócios.

Pautas conservadoras tramitam no Congresso Nacional, há discursos de ódio em diversos espaços e o Brasil segue sendo o campeão mundial em crimes de LGBTfobia – de acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2017, 445 pessoas LGBTs foram mortas no país, número 30% maior do que o registrado no ano anterior.

O Ford Fund, braço filantrópico da Ford, e a Artemisia, organização pioneira no fomento de negócios de impacto social no Brasil, anunciaram, na última quinta-feira (1), durante a Campus Party Brasil 2018, os três negócios que irão receber o capital semente no programa Ford Fund Lab: Inovação e Mobilidade. As startups Garatéa, Onboard Mobility e UBRA foram selecionadas como destaques do programa com base em critérios que enfatizam o propósito social da parceria, como modelo de negócio e potencial de impacto social.

Desde o dia 7 de janeiro de 2018, as companhias Circo do Asfalto e Pequena Trupe de Circo, representando o projeto De Olho no Duto do Instituto Cultural Escola Livre de Palhaços (ESLIPA) escola do Rio de Janeiro por onde integrantes das duas companhias passaram) adentram semanalmente diversas comunidades para realizar um trabalho diferente com a população através da arte do palhaço.

"Não é não". Quem é mulher sabe exatamente do que se trata essa frase. Mas, caso você ainda não esteja familiarizado com ela, é melhor se acostumar: essas palavras prometem tomar conta dos blocos de rua de São Paulo no Carnaval deste ano. A mensagem estará estampada em tatuagens temporárias no ombro, no braço, no decote e, se for preciso, na testa das mulheres para mostrar a importância do respeito à liberdade de escolha.

No dia 18 de novembro de 2017, o programa humorístico Zorra, da Rede Globo, levou ao ar uma esquete em que havia uma plateia composta só por homens, assistindo a pronunciamentos de pessoas numa bancada composta por vários homens e uma única mulher. Toda vez que um homem falava, todos se calavam e ouviam atentamente. Toda vez que a mulher falava, havia conversas paralelas, desatenção e interrupções sucessivas à fala dela. O desfecho do quadro é a personagem acabando por colocar um bigode para se fazer ouvir.

No século 21 – na arte da esquete humorística; na realidade das eleições americanas de 2016 protagonizadas por Trump e Hillary; no palco do VMA 2009 com Kanye West interrompendo Taylor Swift e tomando o microfone dela; no Brit Awards 2012, em que James Corden interrompe Adele; nos tantos programas jornalísticos no Brasil, nos Estados Unidos e no mundo ou nas salas de reunião e nas reuniões sociais que frequentamos – ainda temos que presenciar o fenômeno chamado manterrupting: mulheres tendo sua fala sistematicamente interrompida por homens.

Por que será que isso acontece com tanta frequência? E por que muitas vezes os homens não percebem? E por que será que as mulheres não reagem?

Cultura. A palavra cultura vem de cultivo. E temos sido cultivados, há séculos, tanto homens como mulheres, em uma cultura machista. Por isso, com frequência, fenômenos como esse passam despercebidos no nosso dia a dia.

Bem, mudanças culturais acontecem de tempos em tempos e, felizmente, estamos vivendo uma mudança importante para as mulheres de todo o mundo. No caso do Brasil, é especialmente inadmissível que uma mulher ainda tenha de aturar violência – sim, a interrupção sistemática da fala também é um tipo de violência. Mulheres são a maioria dos micro e pequenos empreendedores e dos formandos universitários no Brasil.

Para ajudar a comprovar a extensão e a gravidade desse problema, no ano passado, a equipe da nossa agência BETC São Paulo resolveu estudar o manterrupting. Descobrimos que se tratava de um fenômeno global, já tendo sido objeto de estudos acadêmicos, como na George Washington University, Harvard, Princeton e outras universidades. Esses estudos revelaram, por exemplo, que 75% das reuniões são dominadas por vozes masculinas e que as mulheres são interrompidas 2,5 vezes mais que os homens.

Como somos uma empresa fundada sobre a igualdade de gêneros, pensamos em fazer algo que ajudasse as mulheres a avançarem nessa questão, vencendo esse tipo de preconceito. Primeiro, pensamos numa campanha – mas campanhas passam, e queríamos fazer algo que fosse uma ferramenta permanente de intervenção contra essa prática. Surgiu então a ideia de lançar o Woman Interrupted App, ou o App Mulheres Interrompidas (Leia matéria do São Paulo São em março de 2017).

Durante sete meses nos preocupamos em desenvolver uma ferramenta com tecnologia de alta precisão, juntamente com a produtora Brave, e conseguimos. Funciona assim: a mulher calibra a própria voz no app e, ao acioná-lo durante uma reunião, ele mede quantas vezes ela foi interrompida por vozes masculinas. Independente do tom da voz, o app é capaz de distinguir quando se trata de uma voz masculina ou feminina. Isso é possível porque a faixa de voz masculina costuma variar entre 80 Hz e 150 Hz (hertz é a unidade de medição da frequência e da vibração das ondas, incluindo as sonoras, como a voz), enquanto a voz feminina varia entre 150 Hz e 250 Hz. Por conta dessas características, já me fizeram perguntas do tipo: “Mas se fosse o Anderson Silva conversando com a Ana Carolina, também funcionaria?” :-) A resposta é: sim!

Imagem: Divulgação.

O sucesso da nossa iniciativa foi surpreendente! Nos últimos oito meses, o Woman Interrupted App foi baixado em 154 países e efetivamente utilizado em 145 países (lembrando que a ONU considera que há 193 países no mundo). Ganhou destaque em matérias de televisão, tendo aparecido quatro vezes na TV aberta dos Estados Unidos – aliás, país que mais baixou o app. Além disso, ganhamos as páginas de importantes jornais, como The New York Times, revistas, blogs e redes sociais de 21 países. Vale lembrar que o app é gratuito e não grava as conversas, apenas afere a modulação da voz durante a conversa.

Esse alcance e essa escala de uso permitiram uma visão inédita sobre o problema. Por exemplo: em 80.000 minutos gerais de registro até o momento, os países onde as mulheres foram menos interrompidas foram Luxemburgo, Eslováquia e Estônia. Se considerarmos o bloco de países membros do G20, o ranking traz Coreia do Sul, Alemanha e Canadá. No ranking geral, o Brasil aparece em 56º lugar, mostrando que, apesar de não estarmos entre aqueles que mais se destacaram negativamente, ainda precisamos avançar muito nessa questão. Em várias reuniões de que eu e minha equipe participamos, observei que o simples fato de as pessoas saberem que o app existe já faz com que os homens se deem conta do ato, muitas vezes involuntário, e não interrompam as mulheres.

Gal Barradas, uma das idealizadoras do app. Foto: Rogerio Cassimiro / Folhapress.Vale lembrar que os resultados são dinâmicos, pois o app continuará disponível na App Store e no Google Play.

Se contra fatos não há argumentos, baixemos e divulguemos esse app para que os números do manterrupting no Brasil tornem-se cada vez menores. No fim das contas, esperamos um dia dar risada de termos criado um app com essa finalidade.

Assista o vídeo Woman Interrupted App - Um aplicativo que detecta Manterrupting. 


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Gal Barradas é sócia e co-CEO da BETC/Havas e Vice-Presidente da ABAP (Associação Brasileira das Agências de Propaganda). *Artigo publicado originalmente na Revista Marie Claire.