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Na Espanha, estudo recente revelou que a carteira de habilitação não é meta para a maioria dos estudantes entrevistados. Foto: El Mundo. Na Espanha, estudo recente revelou que a carteira de habilitação não é meta para a maioria dos estudantes entrevistados. Foto: El Mundo.

Pesquisas no Brasil e lá fora comprovam o que já aparece nas ruas: os jovens estão dirigindo menos e não sonham mais com o carro próprio. As novas gerações querem menos carros e mais transporte público e modais sustentáveis.

Capa do álbum "Luar" de Gilberto Gil de 1981 onde ele lançou "Se eu quiser falar com Deus" . Imagem: Reprodução.Capa do álbum "Luar" de Gilberto Gil de 1981 onde ele lançou "Se eu quiser falar com Deus" . Imagem: Reprodução.

Uma das mais belas composições de Gilberto Gil - ‘Se eu quiser falar com Deus‘ - metaforiza o despojamento necessário para encontrar o sublime que, além do mais, não estará lá como imaginado inicialmente. Isso pode servir também como metáfora para várias outras áreas da cultura, onde a busca do essencial é igual a livrar-se do entulho supérfluo, que é o que impede “ver”. Como se a fé fosse ludibriada pelos excessos copiosos do barroco ou do rococó.

E, então, cabe perguntar: por que o rococó é necessário para a comunicação? Foto: Instafood / Reprodução.E, então, cabe perguntar: por que o rococó é necessário para a comunicação? Foto: Instafood / Reprodução.

Quando você observa as imagens de comida - no Instagram, por exemplo - o que vê, em geral, é o rococó moderno. Talvez o fotógrafo pense que uma simples laranja cortada ao meio seria decepcionante (o que seria matéria suficiente para um bom pintor de natureza morta). Mas o sabor, no que tem de essencial, é exatamente a qualidade que se revela na simplicidade: eu posso entender uma laranja, presentificar seu gosto, o que já não acontece com um prato que vem descrito, composto por meia dúzia ou mais ingredientes. Facilmente me perco como me perco observando detalhes de uma igreja rococó.
Pedra-sabão, estilo rococó e muito ouro. Foto: Prefeitura de Ouro Preto.Pedra-sabão, estilo rococó e muito ouro. Foto: Prefeitura de Ouro Preto.
E, então, cabe perguntar: por que o rococó é necessário para a comunicação? Em boa parte do século XVIII, para a igreja, Deus não seria percebido senão através do excesso, da exibição da pujança da criação. O mesmo parece acontecer hoje, quando a cultura do excesso assume novos contornos, expressando a pujança não de Deus, mas dos produtos da indústria. 

É esse excesso que Gil põe em questão na sua busca imaginada de Deus, exigindo o despojar-se. É o excesso de componentes de um prato que dificulta a percepção exata de algo que, na sua simplicidade, comunicaria o essencial.  

Italo Calvino foi um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Foto: Getty Images.Italo Calvino foi um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Foto: Getty Images.Leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência, seriam os traços da comunicação desejáveis para o presente, segundo lição de Italo Calvino. São portanto vários os caminhos de perda de sentido moderna, quando nos afastamos desses eixos norteadores da modernidade. É por isso que uma certa idéia de essência está tão perto e, ao mesmo tempo, tão inalcançável.  

Para construir uma obra (culinária) duradoura, o sujeito que parte do excesso moderno vive a mesma ilusão de que seria possível construir um monumento a partir da espuma de sabão. O monumento é a pedra ou a madeira, a mão e o formão. E por que seria diferente diante de uma espécie vegetal da qual se quer atingir o âmago?  

“Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias

Ter a alma e o corpo nus...“

Assista Se eu quiser falar com Deus - (Gilberto Gil, 1980).

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Carlos Alberto Dória, sociólogo e conselheiro do São Paulo São, tem vários livros publicados sobre sociologia da alimentação. Mantém e edita o blog e-BocaLivre.
 
 

Mamani propõe uma nova arquitetura boliviana que resgata a sua cultura Aimara com tecidos, cerâmicas e desenhos. Foto: Alfredo Zeballos.Mamani propõe uma nova arquitetura boliviana que resgata a sua cultura Aimara com tecidos, cerâmicas e desenhos. Foto: Alfredo Zeballos.

Um engenheiro, construtor e arquiteto autodidata de El Alto, a cidade mais alta do mundo, município da região metropolitana de La Paz, Bolívia, é um verdadeiro fenômeno em seu país: Freddy Mamani, a quem a imprensa boliviana chama de “o arquiteto do povo” e figurou na lista do ArchDaily de líderes, projetos e personalidades mais inspiradores da arquitetura em 2015.

Viaduto do Chá no centro de São Paulo. Foto: Getty Images.Viaduto do Chá no centro de São Paulo. Foto: Getty Images.

“Bendito sejas, Viaduto Paulista! Sem tu não  poderia passar desta para melhor, embalado pela brisa que te circunda. Adeus! Até para a eternidade és o passadiço de útil eficiência!”

Em abril do ano passado escrevi, aqui mesmo neste espaço, um texto sobre como estávamos cercados por “velhinhos”: nas lojas, mercados, nas ruas, no volante dos táxis, dos ônibus (autocarros, por aqui), nos balcões do serviço público e, bastante, nas salas de aulas, ensinando crianças e jovens. Sob as diversas abordagens que o cenário poderia ter sido abordado – da necessidade de seguir trabalhando pela dificuldade de acumular um patrimônio que garantisse um pouco mais de “vida mansa” nos anos mais avançados ou da sociedade que não discrimina os mais velhos, acabei optando pela última e seguindo o lado mais romântico da realidade. Um ano e meio depois, porém, um dos pontos que via com bons olhos – os professores mais “maduros” e experientes em todas as escolas e salas de aula que acabei conhecendo por causa do meu filho – parecem ser, hoje, motivo de muita preocupação.

Um  novo guia da cidade acaba de sair do forno aqui em São Paulo. O "Guia dos Lugares Difíceis de São Paulo" nasce de um longo processo de construção e compreensão da exploração do território urbano e da possibilidade de problematiza-lo de maneira profunda para fora do ambiente acadêmico. É indiscutível seu pertencimento às novas abordagens sobre a cidade.

Como explica Renato Cymbalista: “este é um guia que apresenta o território como um conjunto de problemas em aberto, que busca escavar a superfície para revelar feridas ou reabrir cicatrizes”.

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