Marfins à mostra - São Paulo São

São Paulo é sisuda. Coisa de cidade grande, meio absurda, onde o anonimato dá chance a tudo e, ao mesmo tempo, tolhe as emoções que queiram transbordar.

Um fim de tarde desses, no meio do engarrafamento, quando deparei com o homem feliz. Caminhávamos pari passu. Eu, presa entre toneladas de gás carbônico, com o pé no acelerador parado, e ele, a passos largos e ritmo feliz, ria e rodopiava em seu próprio corpo. Indagação imediata: ele está bêbado ou é louco?

Era um homem comum saindo do trabalho, com pasta surrada embaixo do braço forte, sapato velho, ria, ria muito, balançando a cabeça e gingando o corpo. Aquilo de tão bom acontecido com ele me contagiava. Senti meus lábios abrirem-se, absorvendo sua extrema felicidade. Um sentimento cravado no sorriso marfim do homem. Teria encontrado a amada de surpresa? Nascido seu primeiro filho? Dado a resposta precisa na hora exata? Chi lo sa? Estava feliz, e isso bastou para me cativar a alma.

Tão difícil de ver a alegria andando pelas calçadas da cidade que neste dia fiquei tomada pelo homem e parti em busca de emoções espontâneas das pessoas. Rodei um pouco mais e cheguei próximo à Avenida Faria Lima. No farol, não pude deixar de sorrir para a pedinte-delivery que fazia sua procissão cruzando carros por dez centavos enquanto empurrava o irmãozinho num sofisticado carrinho de bebê, presente de alguém. Na simplicidade de sua prática, com o nenê grandinho, lá ia ela. Sem colo frágil, orgulhosa de sua cria e mostrando os dentes com um sorriso largo.

Parecendo uma taxista caçando fregueses, metralhava olhares, dando um giro de trezentos e sessenta graus. Dentro dos carros, a única expressão era a de tédio, cabeças rodando, pessoas massageando o pescoço, raras cantando e outras no celular, para espantar o vazio do casulo-quatro-rodas. 

Estava quase chegando próximo à sinagoga da Melo Alves quando o farol iluminou uma família. Meus marfins tiniram novamente. Era uma mãe judia com a com a clássica roupa longa e duas filhas; uma com uniforme de colégio tradicional e a outra vestida de fadinha. É, uma fadinha dourada, com varinha de condão balançando no ar. Tudo reluzia naquele início de noite, dei-me por contente. Nisto, um homem que parecia um boi-bumbá rodopiou na diagonal da rua. Com roupa de trapos multicoloridos, gargalhava. Teatro? Não. Força rompida com ímpeto pela vida.

Novamente me questionei: louco, bêbado ou muito lúcido? Meu coração acelerou, o farol abriu. Ele ainda gargalhava. Então, eu gritei para esse personagem da grande ópera bufa da metrópole, como se o estivesse aplaudindo.

***

Marina Bueno Cardoso é jornalista, cronista e ministra oficinas de criação literária em unidades do SESC e outros espaços. Escreve quinzenalmente no São Paulo São. Esta crônica faz parte do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, que pode ser adquirido no www.editorapatua.com.br



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