A possível leveza do ser - São Paulo São

 

"Joie De Vivre XL 1" :: ©Peter Nottrott :: photo by Saatchi Gallery."Joie De Vivre XL 1" :: ©Peter Nottrott :: photo by Saatchi Gallery.

Há poucas semanas, recebi de um cliente uma solicitação inesperada: produzir um texto sobre minha experiência durante este período de isolamento social. O texto seria publicado na intranet de sua empresa em uma coluna assinada, a cada mês, por um convidado. O briefing sucinto pedia uma narrativa "agradável" – a ideia era proporcionar aos leitores alguns minutos de prazer, em uma época que todos estão (estamos) sendo cotidianamente bombardeados por notícias tão tristes.

Minha primeira reação foi de recusa. Como tornar agradável um tema tão doloroso? Como conferir leveza a esse assunto sem parecer leviana ou alienada? Foram alguns dias de reflexão e discussões, em que acabaram pesando argumentos irrefutáveis: o compartilhamento de experiências é capaz de fortalecer nosso senso de comunidade; é nos momentos de dor que mais precisamos de conforto, e esse conforto pode vir de pequenos prazeres; palavras têm capacidade de inspirar, abrir mentes, espíritos e corações, e de nos levar a outros universos, dos quais sempre podemos voltar melhores. 

Aceitei o desafio.

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Meu isolamento social teve início em treze de março, e a princípio imaginava que o impacto em minha rotina não seria tão grande – como há quase dez anos trabalho em home office, longos períodos sem sair de casa já eram frequentes. No entanto, a presença cotidiana e intensa dos familiares, que por força das circunstâncias também passaram a trabalhar em casa, logo começou a pesar. Tivemos dias de desconforto mútuo, situações quase tensas, até conseguirmos estruturar uma dinâmica capaz de equilibrar convivência, divisão de tarefas, privacidade, produtividade e, claro, proporcionar bons momentos de lazer a todos.

A impossibilidade de manter as atividades físicas habituais também me afetou mais do que eu previa. Embora meu dia a dia já fosse bastante recluso, sempre começava com uma ida à academia. De início, tentei substituir o Pilates, o Muay-Thai e a corrida por lances e mais lances de degraus nas escadas do meu prédio, mas as consequências foram desastrosas – por muito pouco não lesionei um joelho. Acabei adotando então os treinos funcionais auto-orientados, sempre no mesmo horário, pela manhã (não que goste de acordar cedo, mas há anos entendi que é a melhor maneira de garantir a regularidade dos treinos e potencializar minha disposição para o dia). Como não há compromisso com aula ou professor, venho exercitando a autodisciplina – e pelo menos até agora, ela tem vencido a preguiça. 

Com os treinos definidos, resolvi também que o período da manhã seria o dos assuntos domésticos, que tomaram maior proporção em nosso cotidiano. Uma justa distribuição das tarefas entre familiares, somada à inevitável diminuição das demandas profissionais, acabou permitindo que organizasse minha rotina da seguinte maneira: as tardes ficariam sempre destinadas ao trabalho profissional; e as manhãs, depois da atividade física, a um afazer doméstico – ou para atender à "escala do dia", ou por puro prazer.

Prazer?

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©Jenny Holzer :: wood postcard published by ©Printed Matter, NYC.©Jenny Holzer :: wood postcard published by ©Printed Matter, NYC.

As atividades ligadas ao funcionamento de uma casa são muitas vezes chamadas de obrigações, e de fato várias são obrigações mesmo – execuções necessárias, mecânicas, repetitivas e enfadonhas. No entanto, cuidar de uma casa inclui também serviços que, a depender de como nos relacionamos com eles, podem se tornar divertidos e prazerosos. Ocupar-se de algum deles com dedicação e amorosidade reforça nosso vínculo com o espaço habitado e confere um pouco de leveza a esse cotidiano de inevitáveis deveres. A maneira como dispomos nossos móveis, ou arrumamos nossos objetos, ou planejamos uma refeição, cada pequeno gesto é como uma reafirmação de nossas escolhas, capaz de aprofundar a conexão com aquilo que nos envolve e conferir mais significado ao (con)viver.

Em se tratando de tarefas domésticas, meus prazeres são dois. O primeiro é organizar – prateleiras, gavetas, geladeira, documentos, seja o que for, sempre me divirto organizando coisas, e o faço quase sem esforço. Pode até ser algum tipo de TOC... mas de qualquer maneira, funciona como uma terapia, uma meditação: para cada coisa organizada fora de mim, outra parece se organizar dentro. E além do prazer do processo, há ainda o prazer do resultado, que de modo geral acaba satisfazendo meu olhar esteta. (Em seu livro "Living", a artista americana Jenny Holzer fala de modo muito poético sobre esse mecanismo: "There is a pleasure in staying home to adjust each physical detail so that wherever the eye falls, there is harmony. Then you go outside and do the same.")

Nesses quase três meses, já reordenei roupas e louças nos respectivos armários, reposiconei livros em estantes, cataloguei referências, montei listas de desejos de livros, filmes, sites, cursos. Reuni em uma só pasta manuais de instruções dos diversos equipamentos da casa, testei dezenas de canetas para descartar a quase metade que não funcionava, joguei fora colas secas, borrachas duras e clips enferrujados – sem falar nos infinitos cartões de visita (cartões de visita!!!) guardados em ordem alfabética em uma caixa esquecida há pelo menos uma década. Ainda tenho pela frente uma caixa de ferramentas, outra de costura e uma terceira com bijuterias antigas, além de um armário repleto de lençóis, cobertores e toalhas. 

O outro prazer doméstico é a culinária. Meus conhecimentos são básicos, minha experiência relativa e tenho uma certa preguiça de receitas muito elaboradas. Mas pensar previamente em um determinado prato, providenciar ingredientes, estudar as possibilidades de execução, descobrir um novo sabor... tudo na jornada do alimento me parece sempre interessante, além de afetivo e agregador.

De março até agora, embarquei em diferentes aventuras: testei algumas receitas de Tarte Tatin, e também de bolo de abacaxi, de mandioca e de frutas secas. Cozinhei um inédito Frango Oriental Spicy, além de meus já tradicionais Bacalhau ao Forno e Pasta Alla Norma. Resgatei memórias de infância preparando homus e baba ghanoush, mesmo antevendo o desprezo da família por minhas berinjelas assadas em forno (e não em fogo direto como deveria, já que em casa adotamos o cooktop por indução). Fiz ricota de kefir, biomassa de banana, tartines diversas (figo com presunto Parma, abobrinha grelhada com queijo Brie, tomates com anchovas), Ovo no Ninho e até ensaiei um Shakshuka. No próximo final de semana o desafio é um certo risoto. 

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Há quem goste de costurar, de consertar coisas, de lidar com plantas. Tenho uma prima que adora passar roupa (!!!), embora deteste qualquer outro serviço doméstico. E um amigo que, organizando as fotos da família, viu nascer sua paixão por scrapbooks. 

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 Testei algumas receitas de Tarte Tatin, e também de bolo de abacaxi, de mandioca e de frutas secas. Foto: Getty Images. Testei algumas receitas de Tarte Tatin, e também de bolo de abacaxi, de mandioca e de frutas secas. Foto: Getty Images.

Investigar as fontes de nossos prazeres é, na verdade, descobrir a nós mesmos. É um processo de autoconhecimento que permite entender nossos sentimentos e, assim, estruturar recursos internos capazes de proteger nossa saúde mental e  emocional em diversos momentos, mesmo os mais adversos. Não que com isso seja possível eliminar a tristeza, a melancolia ou a angústia – ainda mais em meio a uma situação como a que estamos vivendo, tão penosa em várias instâncias da vida. Mas podemos sim, sempre, colocar um pouco de alegria, satisfação e bem-estar em nosso cotidiano. E a chave para isso está dentro de cada um de nós.

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P.S. Não, não foi este o texto que entreguei a meu cliente, mas foram essas as reflexões que me permitiram escrever algo que atendesse à demanda dele. E além de ter proporcionado a mim mesma, por meio do exercício da escrita, momentos de enorme prazer, parece que deu certo – ele disse que adorou!   ;-)

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas.



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