Londres se prepara para o próximo milênio com mais qualidade de vida - São Paulo São

Londres vem se preparando para os desafios deste novo milênio. Foto: Energisys.Londres vem se preparando para os desafios deste novo milênio. Foto: Energisys.No século XXI as cidades se tornaram protagonistas, e a vida urbana nunca esteve tão em alta. Mais de 7 bilhões de pessoas vivem em cidades, buscando oportunidades, emprego, desenvolvimento humano e interação social. Ainda que com tantas dificuldades estruturais, de mobilidade e desigualdade social, as cidades exercem um fascínio ao ser humano. 

Estudos indicam que em torno de 60 milhões de pessoas migrem para as cidades diariamente, sendo que a ONU prevê que em 2030 90% da população brasileira esteja vivendo em cidades. A urbanização traz muitos desafios mas também oportunidades para o desenvolvimento sustentável. 

Buscando entender essa dinâmica em algumas cidades do mundo, surgiu o projeto 'Conversa sobre Cidades', da @arqatualiza, que utiliza o Instagram como plataforma para dialogar com pessoas que estão acompanhando a transformação de algumas cidades pelo mundo.  

Rafaela Citron. Foto: Acervo Pessoal.Rafaela Citron. Foto: Acervo Pessoal.

A arquiteta brasileira Rafaela Citron, que está atuando em Londres como arquiteta restauradora, trouxe para o debate algumas questões importantes para entender como a cidade de Londres enfrenta a pandemia e quais estratégias está buscando para se reestruturar neste momento de abertura. 

Mas antes de chegar no que está sendo feito é bom dar uma olhada em como Londres vem se preparando para os desafios deste novo milênio. Ainda em 2019 a prefeitura implantou a Zona de Emissão Ultra Baixa (ULEZ, sigla em inglês) que funciona 24 horas por dia e sete dias por semana, cobrindo a região central de Londres, com objetivo de reduzir as emissões de poluentes. Os veículos que circulam nessa área precisarão atender aos padrões de emissão de poluentes ou pagar uma tarifa diária: £12,50 (cerca de R$ 62) para carros, vans e motocicletas, e £100,00 (cerca de R$ 500) para ônibus e caminhões ().

Retirar os veículos das áreas centrais parece ser uma grande tendência das cidades que estão no avant garde do urbanismo contemporâneo. Com menos carros a cidade é mais segura e confortável para as pessoas. Mas, retirar carros implica em incentivar outras soluções de mobilidade urbana, aí sim vemos a implantação de sistemas de transporte público eficientes, ciclovias e percursos caminháveis como a solução para o impasse ().

Neste ano de 2021 também entrou em vigor o novo Plano Diretor de Londres, com estratégias conectadas com os desafios de mobilidade, carbono zero e qualidade de vida. O Plano identifica lugares com capacidade para crescer, incluindo Áreas de Oportunidade e centralidades, buscando qualificar a infraestrutura e transporte público aliados à questão habitacional, apoiando o mix de usos no centro da capital, criando um coração vibrante para a cidade ().

A questão habitacional recebeu um olhar todo especial, tendo sido mapeados no documento o lugar para implantação de mais de 52.000 novas residências por ano em Londres, sendo que a meta é de que 50% de todas as novas residências tenham caráter “affordable” , ou seja de cunho social. Além do aspecto social, Londres valoriza o uso das fachadas ativas e usos mistos, e os empreendimentos devem ser localizados no máximo a 800m de uma estação de metrô, trem ou Town Centre (centralidade local de serviços), com baixa oferta de estacionamento, favorecendo o uso do transporte público e da mobilidade ativa.

No novo plano são enfatizadas estratégias para vencer a emergência climática, definindo que os novos edifícios devam atender padrões de “carbono zero”, bem como de economia circular, minimizando o desperdício de demolição, pensando em novos edifícios que possam ser desmontados e o material reutilizados no final da vida do edifício.
Para a Transport for London o crescimento do número de ciclistas irá proporcionar uma melhor qualidade de vida para a população. Foto: iStock Photos.Para a Transport for London o crescimento do número de ciclistas irá proporcionar uma melhor qualidade de vida para a população. Foto: iStock Photos.

Tornar a cidade mais verde e saudável também está nos pressupostos da lei que protege o verde, os espaços abertos, bem como o Tâmisa e outras vias navegáveis de Londres. Entende-se que através da construção de Ruas Saudáveis poderá ser incentivada a mobilidade ativa com uso de bicicletas e caminhadas. 

Sobre esse assunto, a arquiteta. Rafaela Citron contou que, durante a pandemia foram construídas muitas ciclovias novas, e que até algumas ruas que antes eram utilizadas para carros foram fechadas durante o lockdown e remodeladas para uso de pedestres, havendo também o alargamento das calçadas para garantir o afastamento social recomendado. Ainda que, segundo ela, seja um tanto difícil fazer uso da bicicleta como mobilidade no dia a dia pois, como os aluguéis na City são muito caros, as pessoas acabam morando muito longe do trabalho, e o metrô acaba sendo o meio de transporte eleito. Porém o número de ciclovias na cidade já foi ampliado e a transformação está em processo. 

Em relação aos espaços verdes, segundo ela, estão muito bem distribuídos no território, permitindo que as pessoas frequentem praças e parques na sua rotina diária, pois conseguem chegar até um espaço público com uma pequena caminhada. 

Outro aspecto muito relevante no novo plano e na cidade de Londres é a questão do patrimônio histórico, cuja preservação é regrada e incentivada, buscando preservar as paisagens e edificações históricas. A cidade possui um rico patrimônio que, além de movimentar o mercado turístico, é representativo de séculos de história da humanidade e cuja preservação é levada muito a sério. 

A questão do patrimônio histórico, tem preservação regrada e incentivada. Foto: Urbanist Architecture. A questão do patrimônio histórico, tem preservação regrada e incentivada. Foto: Urbanist Architecture. Em relação à recuperação da cidade no pós Covid, o plano busca algumas estratégias para garantir o uso flexível das ruas e espaços públicos, fornecimento de espaço para logística e distribuição para atender novos empreendimentos, e proteção aos espaços da comunidade tais como pubs, locais de música, infraestrutura cultural e espaços LGBTQ + (The London Plan 2021).

A pandemia também começou a alterar as relações dos espaços de trabalho na cidade. Com a adoção do trabalho remoto, muitas empresas já anunciaram que não retomarão o sistema 100% presencial, reduzindo as estruturas físicas de seus escritórios. Com isso, uma série de imóveis comerciais sem função deverá cumprir um novo papel na cidade, sendo que em Londres essa conversão é incentivada e sequer precisa de aprovação na prefeitura, assim além de aumentar a oferta de moradia, essa política atrai moradores para o centro da cidade.

Londres caminha para a reabertura pós-covid, prevista para 19 de julho. Muitas empresas já anunciaram que vão manter as mesmas medidas de afastamento social e trabalho remoto, buscando ampliar a proteção dos seus colaboradores. Na data deste artigo, pouco mais de 50% da população londrina está totalmente imunizada para Covid-19 e estão zerando a mortalidade pela doença, com importante redução na gravidade dos casos. 

No pós Covid, Londres quer garantir o uso flexível das ruas e espaços públicos. Foto: Getty Images.No pós Covid, Londres quer garantir o uso flexível das ruas e espaços públicos. Foto: Getty Images.

A pandemia trouxe muitos desafios, em especial de saúde pública, mas por outro lado acelerou processos urbanos latentes que são importantes para a melhoria da qualidade de vida nas cidades. Buscar cidades com menor impacto ambiental e valorização da qualidade de vida para as pessoas pode ser uma herança positiva deste período tão sombrio da história da humanidade. O que nos resta é aprender a nos reinventar e conhecer as soluções que outras cidades estão implantando com sucesso, isso certamente contribuirá para as políticas públicas brasileiras e para a mudança de pensamento, tão importante para o Brasil. 

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Ana Paula Wickert é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura e MBA em Marketing pela FGV. É palestrante, consultora e criadora do portal ArqAtualiza





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