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São Paulo São Ensaios

Há um centro feio que é bonito e milhões de pessoas que vivem entre o luxo e o lixo. Há uma avenida, um Minhocão, um Impostômetro, literatura de cordel, jazz, sebos e brechós, “gozações” e outros quebra-cabeças.

Sou paulista. Sou paulista e paulistana, filha de dois paulistanos, nascida na Avenida Paulista. Aprendi, desde criança, a amar o Rio.

Me apresentaram os encantos do nordeste, a riqueza do norte, a praticidade de Brasília. Conheci o sul, passei quase todas as minhas férias em Minas, passeei pelas praias do Espírito Santo. Me cobro por ainda não conhecer todas as capitais do meu país.

Depois de adulta, desbravei a América Latina e a Europa. A Ásia e a África estão nos planos. Nova York também não pode esperar muito.

Todo paulistano é ensinado a gostar do mundo. E temos facilidade para gostar do mundo, provavelmente porque viver em São Paulo é exatamente a arte de ser cidadão do mundo. Mas ninguém gasta muito tempo nos ensinando a amar São Paulo e talvez essa seja uma das maiores injustiças que fazem conosco.

Crescemos ouvindo que São Paulo é grande demais, congestionada demais, perigosa e cruel. Se eu não conhecesse São Paulo eu a imaginaria como um dragão imenso, tomado pela fúria, cuspindo fogo, esmagando pessoas. Mas, para minha sorte, eu nasci e cresci em São Paulo e sei que minha cidade não é nada disso.

Assim como a reputação de Nápoles ganhou recentemente um fino restauro a partir do quarteto de livros escritos por um autor ou autora que assina Elena Ferrante, outras cidades são identificadas de imediato com obras de ficção aptas a multiplicar o fascínio enigmático do lugar e mesmo – como é o caso de Nápoles – escamotear os seus déficits de realidade.

Elena Ferrante (direita) em Nápoles na década de 60. Foto: Daily Trust.Elena Ferrante (direita) em Nápoles na década de 60. Foto: Daily Trust.

A ironia é que a lenda literária construída em torno de várias dessas cidades nem sempre vem de escritores nativos, e sim de estrangeiros, o que faz supor que o olhar de fora muitas vezes consegue captar nuances e atmosferas imperceptíveis a quem vive o cotidiano local. 

O fato de focar a escolha especificamente em cidades pode levar a certas injustiças. Difícil imaginar, por exemplo, alguém que tenha captado com maior sensibilidade o spirito meridionale do que o alemão Goethe, na sua Viagem à Itália, relato sobre suas peregrinações ao longo de um ano e meio (1786-1788).

Correndo o risco de outras omissões, aqui estão as cidades selecionadas e seus aficionados:

1. Alexandria, Egito

Imagem: Fandom.Imagem: Fandom.Cidade de encruzilhadas, a antiga capital do império helenístico de Alexandre Magno foi erigida, a partir de um vilarejo de pescadores, com vocação de grandeza e propensão à diversidade cultural, ética e religiosa. No seio de sua comunidade judaica nasceu, por exemplo, o futuro historiador Eric Hobsbawm (1917-2012).

Alexandria teve no seu Farol um dos sete monumentos da antiguidade e abrigou a maior biblioteca da época, consumida por um incêndio. O inglês Lawrence Durrell, em O Quarteto de Alexandria (1957-1960), mergulhou no melting pot frenético, desregrado e ensolarado de uma metrópole que mesmo hoje, a segunda cidade mais populosa de um Egito mais hermético (4,1 milhões de habitantes), não consegue perder sua identidade dupla de vínculo com o Ocidente e o Oriente.

2. Berlim, Alemanha

© 1972 Allied Artists-ABC Pictures.© 1972 Allied Artists-ABC Pictures.

A Berlim que virou capital da Alemanha unificada, após a queda do Muro, ainda é ironizada como “pouco alemã” pelos próprios alemães. Ao que os berlinenses respondem: Berlim “é pobre, mas sexy”.

O fato é que a cidade guarda na alma as cicatrizes de tempos sombrios, a arrogância prussiana do Império, os sacolejos da República do Weimar, a sanha nazista e a divisão do pós-guerra. Hoje em dia, Berlim recupera a mística boêmia de Adeus a Berlim (Goodbye to Berlin, de 1945), seis contos autobiográficos do inglês naturalizado americano Christopher Isherwood, já impregnados da decadência anunciada da Berlim às vésperas do nazismo.

Livro que inspirou, no musical e, depois, no filme Cabaré, a atmosfera trepidante e devassa do bas-fond berlinense em torno da figura de Sally Bowles (Liza Minelli).

3. Cairo, Egito

Foto: Getty Images.Foto: Getty Images.

Não é para qualquer um a decifração de uma cidade escaldante e empoeirada, cujos enigmas serpenteiam pelos becos e as palavras se recolhem às pausas do narguilé nos cafés exclusivamente masculinos. 

Naguib Mahfouz nasceu no Cairo, em 1911, e lá faleceu, em 2006, com mais de 50 livros no currículo e um Nobel de Literatura inédito para quem escreve em árabe (em 1988). Mahfouz conhece todos os passos do caminho que fazem da capital do Egito uma colmeia humana emaranhada e superpovoada (8,5 milhões de habitantes).

A tradição oral derivada de As Mil e Uma Noites encontra eco em O Beco do Pilão, de 1947, cujo cenário é uma rua sem saída, menção alegórica a personagens em busca de um destino, ainda que meramente movidos a fantasia. 

4. Florença, Itália

Foto: Getty Images.Foto: Getty Images.A cidade parece padecer de uma maldição de Maquiavel – seu mais ilustre cidadão e pensador –, pois o inequívoco potencial de sua inspiração artística não corresponde necessariamente à produção de alta literatura.

Antes de esplendor, houve Dante, é verdade. Ressalve-se também o vigor do local Vasco Pratolini e de seus resistentes proletários e um ou outro momento de beleza como em Uma Janela para o Amor (A Room With a View, do inglês E.M. Forster, de 1908).

Um blend de ensaio erudito (o título cita o historiador John Ruskin) e mergulho emocional, sujeito a surpresas trepidantes, faz de As Pedras de Florença, da americana Mary McCarthy, um estimulante companheiro de viagem. McCarthy tem no humor que corta sem machucar sua maior expertise. 

5. Istambul, Turquia

Foto: Luciano Mortula.Foto: Luciano Mortula.

Nobel de Literatura de 2006, Orhan Pamuk refaz as peregrinações de Gustave Flaubert, de Maxime du Camp, de Gérard de Nerval, de Théophile Gauthier, para disfarçar, na sua Istambul natal e afetiva, os caminhos oblíquos de sua própria melancolia.

Istambul, Memórias de Uma Cidade, de 2003, está impregnada de hüzün, aquele sentimento oriental de quase fatalidade, em contraste ambíguo com a tradição familiar pró-ocidental, burguesa e laica de Orhan Pamuk e sua prosa de sonoridade, digamos assim, francofônica.

Repassar as memórias em imagens que só parecem trazer fantasmas é experimentar a sensação de que, querendo ou não, nosso passado nos escraviza. Pamuk já se mudou tantas vezes, mora hoje em Nova York e, no entanto, capitula: “Nunca deixei Istambul, nunca deixei as casas, as ruas e os bairros de minha infância”.    

6. Lisboa, Portugal

Foto: Casa Fernanda Pessoa.Foto: Casa Fernanda Pessoa.

“Lisboa com suas casas/ De várias cores…/ À força de diferente, isto é monótono. Como à força de sentir, fico só a pensar.”

“Pelo Tejo vai-se para o Mundo./ Para além do Tejo há a América/ E a fortuna daqueles que a encontram.” 

“Uma névoa de Outono o ar raro vela,/ Cores de meia-cor pairam no céu. / O que indistintamente se revela,/ Árvores, casas, montes, nada é meu.”

“O céu azul – o mesmo da minha infância –/ Eterna verdade vazia e perfeita!/ O macio Tejo ancestral e mudo./ Pequena verdade onde o céu se reflete!/ Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!/ Nada me dais, mas me tirais, nada sois que eu me sinta”.

Versos de Fernando Pessoa (Lisboa, 1888 – Lisboa, 1935).

7. Los Angeles, Estados Unidos

Foto: Vice.Foto: Vice.

Parece contraditório que um reduto solar como Los Angeles tenha encontrado sua melhor tradução literária na ficção noir. Nas pegadas de Raymond Chandler (1888-1959), de O Sono Eterno (The Big Sleep, de 1939), James Ellroy fez da cidade que abriga a fantasia policromática chamada Hollywood o cenário para traições, trapaças, desilusões, corrupção policial e crimes de singular violência, como aquele que o autor viveu no pesadelo da crua realidade: o assassinato de sua mãe.

O fantasma da vítima tão próxima assombra o quarteto de romances que tem LA dos anos 40 e 50 ao fundo (Dália Negra, The Big Nowhere, LA-Cidade Proibida e White Jazz). Em My Dark Places, de 1996, a ficção cede lugar ao jornalismo investigativo, e Ellroy sai, quase 40 anos depois, para desvendar a morte de sua mãe, mas a Los Angeles sombria, sórdida, alcoolizada, continua sendo protagonista da narrativa.

8. Mumbai, Índia

Foto: Alex Robinson.Foto: Alex Robinson.

A ex-Bombaim, na costa ocidental da Índia, é uma metrópole de crescimento exponencial demais (tem hoje 19 milhões de habitantes) para que alguém alimente a ilusão de identificar nela o cenário que serviu de referência a Os Filhos da Meia-Noite, que Salman Rushdie, um nativo da terra desgarrado em frias paragens britânicas, situa a partir da meia-noite de 13 de agosto de 1947 – o dia da independência da Índia.

Mas estão nessa Mumbai de Rushdie os elementos imateriais que revelam a sua alma: os atritos religiosos, o intolerante sistema de castas, o aventureirismo inescrupuloso, o fantasma do antigo colonizador, a algaravia das ruas, os verões abrasantes, a miséria persistente e a descrença no futuro. O livro de Rushdie, guiado pela memória, é de 1980.

9. Paris, França

Foto: Le Dome Café.Foto: Le Dome Café.

Toda vez que você ouvir o clichê de que Paris é uma festa, não tenha dúvida: culpe Ernest Hemingway.

A Moveable Feast, na versão original, é uma obra póstuma, publicada em 1964, portanto três anos após o escritor ter se matado em seu rancho, em Idaho (EUA). Retrata a faiscante Paris dos anos 20, na qual a “geração perdida” dos émigrés, tais como Picasso, Scott Fitzgerald, John Dos Passos, Ezra Pound e o próprio Hemingway, vivia um idílio intelectual embebido em pastis e vin ordinaire.

É tristemente irônico que a menção a Paris traga à tona de imediato o nome de Hemingway, e não, por exemplo, o do extraordinário Gustave Flaubert, de Educação Sentimental, assim como no cinema ficou a ilusão de que quem melhor conhece Paris é Woody Allen, e não René Clair. 

10. Salvador, Brasil

Foto: Eduardo Moody.Foto: Eduardo Moody.

O Pelourinho, o Mercado Modelo, a Água de Meninos, a Ladeira do Pilar, o Ilê Axé Opó Afonjá, o Terreiro de Jesus, a Baixa dos Sapateiros, a Rua da Agonia, a Ladeira da Água Brusca, a Rua do Chega Negro, a Rua da Forca, a Rua dos Marchantes e o Beco do Sossego.

Salvador da Bahia é, na nomenclatura de seus sítios históricos, um clamoroso convite à ficção e ninguém soube reproduzir melhor do que Jorge Amado – procedente do ciclo original do cacau em torno de Ilhéus – a redundância mítica da geografia urbana. Se alguém disser que Salvador é criação de Jorge Amado não estará muito longe da verdade.

Capitães da Areia, de 1937, o primeiro dos vários romances que recrutam o submundo de Salvador como painel, conserva a vitalidade de uma literatura de combate.

11. Tânger, Marrocos

Foto: Bruno Morandi.Foto: Bruno Morandi.

Chegam até esta que é a mais setentrional das cidades da África, promontório afiado apontando para Gibraltar, tanto as ventanias do Mediterrâneo quanto as aragens do deserto, se bem que amainadas pela distância – o que pode ser entendido como o encontro simbólico da civilização com a tradição. Porto também – para operosos navios de carga e para atormentadas naves humanas.

Menos turística que Marrakesh, menos institucional do que Rabat, a capital do Marrocos, a cidade de Tânger abrigou no pós-guerra a alma irrequieta do escritor e compositor nova-iorquino Paul Bowles (1910-1999) e a mulher dele, Jane, também escritora e dramaturga. The Sheltering Sky, de 1949, que Bernardo Bertolucci filmou (O Céu Que Nos Protege, na versão brasileira), confirmou Tânger no mapa da literatura internacional, assim como vários de seus contos posteriores.

12. Tóquio, Japão

Foto: A City Made By People.Foto: A City Made By People.


A metrópole dos becos plácidos, das tradicionais casas de gueixas e de paixões labirínticas retratada nas obras clássicas de Akutagawa, de Tanizaki, de Soseki, contrasta com a balbúrdia noir do contemporâneo   – em especial no thriller claustrofóbico, mas altamente estilizado de In The Miso Soup (de 1997, edição brasileira de 2005).

O cenário é diferente daquela Tóquio febril de Shibuya e Shinjuku que emerge de outros livros de Murakami. Aqui, a vida é pedestre, uma via estreita perto do lendário Mercado de Peixes, a ponte Kachidoki, a colina que descortina o Templo Hongan-ji. Nesta Tóquio de Murakami ainda há muitos mistérios a se decifrar.

13. Verona, Itália

Foto: City Scape.Foto: City Scape.Com tinturas de lenda, mas aflições de realidade, a história da mortífera briga política pelo controle de Verona já estava na Divina Comédia, de Dante (Purgatório VI). William Shakespeare transformou-a no mais dramático enredo de uma paixão impossível.

A casa dos Capuleti (que viraram Capuleto em Shakespeare) é um palazzo medieval, erigido no início do século XIV na Via Cappello, e em cuja fachada se destaca o mítico balcão que Romeu, do clã rival dos Montecchi, escalava para visitar a sua adorada Julieta. Está lá, para a visitação de todos os enamorados de hoje.

Verona é tombada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. 

14. Veneza, Itália

Foto: Getty Images.Foto: Getty Images.

Eis aí uma cidade capaz de fazer pulsar, até nos mais medíocres, a veia do escritor. Não por acaso pôde inspirar obras-primas na pena do erudito inglês John Ruskin (o tratado sentimental-arquitetônico As Pedras de Veneza é de 1851) e do americano expatriado na Inglaterra Henry James (o thriller epistolar Os Papéis de Aspern, publicado em 1881). Entre muitos outros.

Mas, com a mãozinha sofisticada de Luchino Visconti e seu cinema, é Morte em Veneza, do alemão Thomas Mann, a obra que ganhou primazia ao descrever a grandiosidade desafiadora da cidade dos doges, à qual os miasmas da laguna conferem um cheiro de elegante decadência.

O livro é de 1912 e o filme, de 1971. Da pátina dos palazzi da aristocracia e da cilada das ruas labirínticas, a literatura extrai as tramas do feitiço eterno.

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Por Nirlando Beirão em Carta Capital. Edição: São Paulo São.

Todo o marketing em torno das smart cities, as tais cidades inteligentes (e há muito marketing, porque por trás delas estão grandes corporações vendendo tecnologia para os governos municipais) fala em cidades humanas e democráticas, a partir da possibilidade de interação do cidadão com o governo e de como essa interação pode promover melhoria da qualidade de resposta das políticas públicas às pessoas.

Descubro, espantada, no dicionário etimológico, que ruga e rua têm a mesma origem: dobra, vinco, entrada, sulco, fenda. Como nunca tinha pensado nisso, se presto tanta atenção à origem das palavras e também muita às minhas rugas, cada vez mais pronunciadas? Talvez seja porque as etimologias também gostem de se ocultar e trabalhar como metáforas cuja entrelinha, às vezes, opera como uma revelação.

Foto: Bob Wolfenson.Foto: Bob Wolfenson.