Pessoas - São Paulo São

São Paulo São Pessoas

Lúcio Kowarick foi pioneiro em expor a lógica entre crescimento e pobreza. Foto: Acervo da família.Lúcio Kowarick foi pioneiro em expor a lógica entre crescimento e pobreza. Foto: Acervo da família.

Mais uma perda nesse triste ano, o professor Lúcio Félix Frederico Kowarick (São Paulo, 1938 - 2020), um dos mais importantes pensadores sobre a cidade brasileira. Entre muitos, seu texto a "Lógica da Desordem", que integrou o memorável livro "São Paulo 1975: Crescimento e Pobreza", desvendou a lógica urbana no capitalismo periférico, onde a desordem é um expediente para garantir o funcionamento de uma cidade tremendamente desigual.

Sua contribuição foi imensa, mas quero destacar sua generosidade como orientador. O Lúcio foi para mim um verdadeiro pai intelectual.

Acolheu a mim e a Raquel Rolnik (arquiteta e urbanista), quando ainda eramos estudantes de graduação, meio hippies, com uma dedicação que me deixa agora A obra de Lúcio Kowarick dialoga fortemente com o cenário citadino insurgente que emerge nas décadas de 1970 e 1980. Foto: Acervo da família.A obra de Lúcio Kowarick dialoga fortemente com o cenário citadino insurgente que emerge nas décadas de 1970 e 1980. Foto: Acervo da família.com lágrimas. Lembro de quando fomos conversar com ele nos barracões da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), em 1976, e pedir para ele orientar na nossa primeira pesquisa, que depois virou o livro "Periferias" (1979).

Ele não nos conhecia, era uma estrela, mas topou de primeira e logo em seguida nos convidou a frequentar seu grupo de estudos no apartamento na Rua Peixoto Gomide, onde conheci e compartilhei um pouco com sua família.

Esse grupo de estudos, que depois se desdobrou em outro que se reuniu na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) até 1979, foi essencial na minha formação. Quando a Fapesp rejeitou nosso projeto de iniciação científica, ele escreveu uma longa argumentação de quatro páginas defendendo a importância da pesquisa.

Sem aquilo, talvez, "Periferias" não teria sido existido e minha história talvez fosse outra.

Ele me convidou duas vezes para trabalhar na Cogep (Coordenadoria de Planejamento da Prefeitura de São Paulo), onde aprendi muito sobre urbanismo e convivi com grandes planejadores.

Em 1979, em um período difícil na FAU, ele me acolheu e me disponibilizou seu arquivo de pesquisa em sua sala na FFLCH sobre movimentos sociais no início do século XX, que foi o início da pesquisa que gerou meu livro "Origens da Habitação Social".

No início dos anos 1980, viramos amigos e parceiros em muitos outros trabalhos e diálogos sobre política.

Em sua casa, onde conheci alguns aqueles pesquisadores do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) que para mim eram capas de livros, conversamos sobre política naqueles tempos de esperança, com a redemocratização, o nascimento do PT e as diferentes visões sobre o futuro do Brasil.

Quando ele participou da criação do Cedec, me convidou para trabalhar em uma grande pesquisa sobre as condições de vida, em parceria com o Dieese, que nunca foi publicada.

Aprendi muito com ele nesses e em muitos outros momentos em que nossas trajetórias se cruzaram.

Mais recentemente, ele me pediu referências históricas sobre cortiços para uma análise que queria fazer. Levei para sua casa duas caixas com vários cadernos de todo o levantamento que fiz sobre o tema desde aqueles dias, há 40 anos, que comecei a estudar a história do movimento social e da habitação em sua sala na FFLCH - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

O trabalho de Lúcio influenciou gerações no estudo urbano e sua obra 'A espoliação urbana' marca a origem da sociologia urbana brasileira. Foto: Acervo da família.O trabalho de Lúcio influenciou gerações no estudo urbano e sua obra 'A espoliação urbana' marca a origem da sociologia urbana brasileira. Foto: Acervo da família.

Em novembro passado, ele me enviou a primeira versão dos seus escritos. Era a parte 1 do texto "Os cortiços e seus moradores na periferia do capitalismo". Pediu para marcar um encontro no início desse ano para conversar sobre o texto. Mas, descuido meu, foi ficando para depois, veio a pandemia e não consegui mais falar com ele. Lamento muito.

Essa talvez tenha sido sua última contribuição, que é imensa, para o estudo da cidade brasileira.

Não vou falar mais da sua importância nos estudos urbanos, que é imensa. Mas quero deixar registrada essa história de grande orientador que ele foi, como um exemplo para todxs nós.


Ps: Lúcio faleceu no último dia 24 em São Paulo.

***
Nabil Bonduki é mestre e doutor em estruturas ambientais urbanas e livre-docente em planejamento urbano pela USP.  Foi vereador pelo PT (2001-2004 / 2013-2016.) e Secretário Municipal de Cultura na gestão Fernando Haddad (2015-2016).

Patricia Galvão viveu sob regras próprias e deixou como legado a ideia de que as mulheres podem, e devem, ser livres. Foto: Acervo Familiar. Patricia Galvão viveu sob regras próprias e deixou como legado a ideia de que as mulheres podem, e devem, ser livres. Foto: Acervo Familiar.

Pagu (Patrícia Rehder Galvão: São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910 - Santos, 12 de dezembro de 1962) já foi quase palavrão, sinônimo de confusão, antônimo de moça direita. Considerada por muitos como louca e devassa, o fato é que ela fez e viveu diferente das outras, desde o começo.

Maria Alice Vergueiro em Górgona, documentário de Fábio Furtado e Pedro Jezler sobre a trajetória de uma das mais importantes atrizes do teatro brasileiro. Foto: Divulgação.Maria Alice Vergueiro em Górgona, documentário de Fábio Furtado e Pedro Jezler sobre a trajetória de uma das mais importantes atrizes do teatro brasileiro. Foto: Divulgação.

Morreu nesta quarta, dia 3, a atriz Maria Alice Vergueiro, aos 85 anos. A atriz estava internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital das Clínicas, em São Paulo, em estado grave desde a última sexta, dia 29, para tratar de uma pneumonia broncoaspirativa. 

Veridiana Prado, Lina Bo Bardi e Carolina Maria de Jesus estão entre as mulheres homenageadas no livro #MulheresdeSP, do canal Viva Cultura. Ilustrações de Débora Islas, Lorena de Paula e Bianca Nazari / Divulgação.Veridiana Prado, Lina Bo Bardi e Carolina Maria de Jesus estão entre as mulheres homenageadas no livro #MulheresdeSP, do canal Viva Cultura. Ilustrações de Débora Islas, Lorena de Paula e Bianca Nazari / Divulgação.

Apenas 15% das ruas de São Paulo tem nome de mulher. O percentual é inferior ao de logradouros que homenageiam homens e até mesmo datas comemorativas. Quando se deparou com esse dado, a gestora cultural Alana Carvalho, 31 anos, decidiu que iria resgatar algumas das histórias de mulheres que davam nome a ruas, praças e monumentos da capital paulista, mas tiveram sua trajetória apagada. A pesquisa, inicialmente publicada no final de 2018 nas redes sociais do canal Viva Cultura, criado por Alana, agora está reunida em um livro, lançado nesta última sexta-feira (29).

Ângelo era um dandy… Pois ele sabia que as coisas, os negócios precisavam de alma, de qualidade, de fazer a diferença em cada coração. Foto: Divulgação.Ângelo era um dandy… Pois ele sabia que as coisas, os negócios precisavam de alma, de qualidade, de fazer a diferença em cada coração. Foto: Divulgação.

Morreu na noite dessa quarta-feira, 22 de abril, o empresário e DJ Ângelo Leuzzi. Figura-chave da noite paulistana, ele fundou na década de 80 o Rose Bom Bom, onde se apresentaram em início de carreira bandas como Titãs, Ultraje a Rigor, Plebe Rude e Engenheiros do Hawaii. Mais tarde, ele ainda fundou o Columbia - com a pista do Hell's Club no subsolo -, a Lov.e, a Base e o Mood Club.

Placa Dona Veridiana em rua do bairro de Higienópolis em São Paulo. Foto: Coletivo Pisa.Placa Dona Veridiana em rua do bairro de Higienópolis em São Paulo. Foto: Coletivo Pisa.

A trajetória da cidade de São Paulo está diretamente ligada ao papel da mulher paulistana. Para dar destaque a elas, escolhemos alguns exemplos de personagens icônicas que dão nome a ruas, praças, locais e espaços públicos. Sejam elas personalidades, militantes ou ícones intelectuais de nossa sociedade, nascidas aqui ou “apaulistadas”.

São mulheres que deixaram de alguma forma suas marcas na cidade ao longo do tempo e que até hoje enchem a cidade de orgulho a cada esquina. Vamos a elas.

APOIE O SÃO PAULO SÃO

Ajude-nos a continuar publicando conteúdos relevantes e que fazem a diferença para a vida na cidade.
O São Paulo São é uma plataforma que produz conteúdo sobre o futuro de São Paulo e das cidades do mundo.

bt apoio