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O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres. Foto: Mário Jorge de Castro.Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres. Foto: Mário Jorge de Castro.Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. Foto: Getty Images.Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. Foto: Getty Images.

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...

De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Foto: Getty Images.De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Foto: Getty Images.Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...

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Mário de Andrade (1893-1945), nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, de parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. "Macunaíma", baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.

“O Peru de Natal“, foi publicado por Mário de Andrade (1893-1945) na revista da Academia Paulista de Letras em 1942 e, posteriormente, na obra póstuma Contos Novos, de 1947. O texto acima foi extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23.

Após a abertura da MU.ITA Ocupação no CCPenha, em 20 de novembro, a inauguração da estátua de Itamar Assumpção (1949 - 2003), no dia 15 de dezembro, em frente ao Centro Cultural da Penha, dá continuidade às comemorações do primeiro ano de existência do Museu Itamar Assumpção - MU.ITA.

Primeira das cinco estátuas em homenagem a personalidades negras, anunciadas este ano pela Prefeitura de São Paulo, a obra em bronze, com 1,80 m de altura, é assinada pelo artista plástico Leandro Júnior. Criador de peças expostas em museus de Nova Iorque, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, Júnior é professor de arte e escultura em comunidades quilombolas e tem um trabalho voltado para a ancestralidade africana e a história da escravização no Brasil.

Uma programação especial foi pensada para celebrar o dia, que começa às 11h, com uma Missa Afro na Igreja do Largo do Rosário dos Pretos, que segue em procissão até o local da estátua, em frente ao CCPenha. A solenidade de inauguração conta com as presenças do ex-ministro da Cultura e Conselheiro do MU.ITA, Gilberto Gil; do Prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes; da Secretária de Cultura do município, Aline Torres e, claro, da família Assumpção.

Programação de shows marcam entrega do monumento, com participação de Rincón Sapiciência e Anelis Assumpção. Foto: Gloria Fluguel.Programação de shows marcam entrega do monumento, com participação de Rincón Sapiciência e Anelis Assumpção. Foto: Gloria Fluguel.

As Pastoras do Rosário, grupo formado por mulheres negras do bairro da Penha, cantam após a cerimônia e, a partir daí, o microfone fica aberto para a participação do público: poesia, rimas, músicas, todas e todos serão bem-vindes. O Bloco da Micaela anima a tarde no Largo e, às 17h, no Teatro Martins Penna, Anelis Assumpção apresenta um show muito especial, apenas com canções do Itamar e com a participação de Rincon Sapiência. O Bloco Ilu Obá de Min traz seus tambores, pernas de pau e toda potência da cultura preta, a partir das 18h, no encerramento das comemorações do dia.

"É fundamental que toda a comunidade negra se movimente para estar presente e fazer ecoar este acontecimento. Não é todo dia que um artista negro brasileiro ganha uma estátua ou que a memória dos nossos é reverenciada. Num momento de tantos retrocessos, precisamos mirar no afrofuturo e reconstruir este país a partir das vivências e potências pretas", provoca Anelis Assumpção, cantora, compositora e diretora geral do museu que leva o nome do seu pai, Itamar Assumpção.

Itamar Assumpção e Alzira Espíndola cantam durante show na Funarte. Foto: Vange Milliet.Itamar Assumpção e Alzira Espíndola cantam durante show na Funarte. Foto: Vange Milliet.

Nascido em Tietê, no interior de São Paulo, Itamar viveu durante mais de vinte anos no bairro da Penha. Na capital, desenvolveu sua carreira como um artista autodidata e criou uma linguagem única que lhe deu o posto de um dos mais importantes nomes da Vanguarda Paulista. Com inspirações que vão de Jimmy Hendrix a Adoniran Barbosa, Itamar compôs dezenas de parcerias, entre elas “Dor Elegante”, com Paulo Leminski; registrada também por Zélia Duncan. O músico faleceu cedo, aos 53 anos, vítima de um câncer em 2003. Em 2020, o

MU.ITA - Museu Itamar Assumpção é inaugurado e se torna o primeiro museu virtual dedicado a um artista negro brasileiro. 

Serviço:

Foto: Adiel Silva.Foto: Adiel Silva.

Inauguração de Estátua Itamar Assumpção.
Local: Em frente ao Centro Cultural da Penha.
Largo do Rosário, 20 - Penha.

Programação:

Itamar Assumpção posa com a camisa da ala "Quem Sabe Pode" na quadra da Escola de Samba Nenê da Vila Matilde 1985. Foto Oscar Barros 640x417Itamar Assumpção posa com a camisa da ala "Quem Sabe Pode" na quadra da Escola de Samba Nenê da Vila Matilde 1985. Foto Oscar Barros 640x417

11h - Missa Afro na Igreja do Largo do Rosário.
12h - Cerimonial de abertura com as presenças do Prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, da Secretária de Cultura do município, Aline Torres, da família Assumpção e do ex-ministro da Cultura e Conselheiro do MU.ITA, Gilberto Gil.
14h - Pastoras do Rosário.
15h - Bloco da Micaela.
17h - Show Anelis Assumpção Canta Itamar, com participação de Rincon Sapiência - Teatro Martins Penna, Centro Cultural da Penha. Os ingressos serão gratuitos e distribuídos 1 hora antes do show.
18h - Bloco Afro Ilú Oba De Min.

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Com informações Fernanda Couto Comunicação.

Cronista da cidade, Adoniran denunciou a desigualdade e a especulação imobiliária. Foto: Pandora Filmes / Divulgação.Cronista da cidade, Adoniran denunciou a desigualdade e a especulação imobiliária. Foto: Pandora Filmes / Divulgação.

Uma cidade em um processo acelerado e violento de crescimento. É essa a São Paulo retratada nos sambas do compositor Adoniran Barbosa, a quem o intelectual Antônio Cândido chamou de “a voz da cidade”. 

Adoniran nasceu João Rubinato em Valinhos, no interior do estado, no dia 6 de agosto de 1910. No começo da adolescência, se mudou com a família para a cidade de Santo André, vizinha a São Paulo.

Trabalhando como mascate, ele passou a circular muito pelo centro da capital paulista. E foi aí que conheceu os tipos urbanos que influenciariam suas músicas, como explica André Santos, que faz doutorado em História Social sobre a paisagem sonora de São Paulo nos anos 1930 e 1940.

“Ele bebe muito dessa fonte desses trabalhadores urbanos, dessas populações mais pobres que circulam pela região central de São Paulo e que também compartilham de uma musicalidade muito particular, principalmente na fala. Adoniran ficou muito marcado por isso: por saber incorporar esses modos de falar que estão circulando em São Paulo, e ele consegue capturar isso e trazer pra sua música”, avalia.

"Adoniran é mais profundo que um quais, quais, quais", diz cineasta Pedro Serrano 

Imagem do documentário: "Adoniran, Meu Nome é João Rubinato". Imagem: Pandora Filmes.Imagem do documentário: "Adoniran, Meu Nome é João Rubinato". Imagem: Pandora Filmes.

Esse “jeito certo de falar errado” rendeu ao Adoniran problemas com a censura durante o regime militar e a fama de ser um compositor engraçado. A questão do humor foi acentuada pelos Demônios da Garoa. Com um estilo de interpretação conhecido como “gaiato”, o grupo gravou músicas de Adoniran que se tornaram clássicos, como “Saudosa Maloca” e “Trem das Onze”.

Mas, por trás do ritmo animado e dos “quaisqualigudum”, estavam letras muitas vezes trágicas e que abordavam problemas sociais. A questão da moradia é um deles, como aponta Pedro Serrano, diretor do documentário “Adoniran – Meu nome é João Rubinato”.

“Tudo isso da moradia está muito ligada ao progresso a à questão de como a cidade foi virando essa megalópole de uma maneira desenfreada e pouco planejada e que vai deixando os mais pobres à margem. Hoje a gente tem esse nome muito definido e muito claro de "especulação imobiliária". Acho que na época ele já cantava sobre isso sem ter essa essa nomenclatura”, diz. 

O som transgressor dos morros

Rubinata: a personagem boêmia criada por Maurício Squarisi homenageia Adoniran. Imagem: Divulgação.Rubinata: a personagem boêmia criada por Maurício Squarisi homenageia Adoniran. Imagem: Divulgação.

A música “Despejo na favela”, gravada por Beth Carvalho, mostra bem o olhar do Adoniran cronista, que sempre se colocava no lugar dos menos favorecidos. Outra característica marcante das músicas é que elas contam histórias.

Foi isso o que chamou a atenção de Maurício Squarisi, criador e diretor da animação “Rubinata”, que homenageia Adoniran. 

“As músicas dele são visuais. Parecem roteiros mesmo, porque ele escreve com imagens da cidade. Quando você escuta as músicas dele, você vê o carro que atropelou a Iracema, você vê o Papai Noel que não passou na chaminé. São cheias de imagens. E ele faz dividido em cenas. Se a gente pegar cada música dele, dá pra virar um curta-metragem. Já está tudo ali, roteirizado”.  

Nesses pequenos filmes em forma de música, Adoniran misturou crítica social, humor, amor, poesia e uma pitada de tristeza.
 
Ele mesmo se sentia um pouco deslocado no meio do crescimento vertiginoso da cidade. Adoniran, por exemplo, tinha medo de andar de metrô e de elevador. E chegou a chamar São Paulo de “inferno que anda” em uma entrevista à televisão. O documentarista Pedro Serrano fala desse aspecto do compositor.
 
“Ele é um cara que gostava da cidade provinciana e nunca se adaptou a esse progresso, nunca mais conseguiu se enxergar dentro dessa cidade tão voraz onde os espaços deixaram de ser públicos, comunitários, para as pessoas namorarem, se encontrarem, conversarem. A cidade deixa um pouco de ser humana e vira uma cidade muito mais funcional, muito mais corrida. E isso foi muito sentido pra ele”.
 
Cachaça, caipirinha e prosa na São Paulo da garoa
Elis Regina e Adoniran Barbosa nos anos 1970. Imagem: IMS / Reprodução.Elis Regina e Adoniran Barbosa nos anos 1970. Imagem: IMS / Reprodução.
Quem conseguiu captar bem esse lado mais melancólico de Adoniran foi Elis Regina. A interpretação da Pimentinha para “Saudosa Maloca” destacou o drama das pessoas que perdem suas casas. Para André Santos, a força da obra de Adoniran está na capacidade de tratar temas pesados com beleza. Saudosa maloca é um exemplo notório dessa capacidade, dessa característica do compositor, ele sabe extrair beleza de uma situação trágica. Há beleza na forma de se resistir a esse processo violento que perpassa esses corpos”.
 
Processo violento que segue até hoje. Déficit habitacional, especulação imobiliária, população em situação de rua ou vivendo em moradias precárias... Os temas abordados por Adoniran continuam, infelizmente, bastante atuais.

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Por Raquel Setz no Brasil de Fato.

"Planejamento urbano não pode separar trânsito, moradia e lazer", dizia Jaime Lerner. Foto Daniel Katz."Planejamento urbano não pode separar trânsito, moradia e lazer", dizia Jaime Lerner. Foto Daniel Katz.

Jaime Lerner, um dos maiores urbanistas do mundo, morreu nesta quinta-feira (27) em Curitiba, aos 84 anos, por complicações de doença renal crônica.

Em 2016, em um lançamento de documentário sobre sua obra, ("Jaime Lerner, Uma História de Sonhos"Jaime Lerner, Uma História de Sonhos") pude constatar o carisma ao vivo de Lerner. Depois do evento, pessoas da platéia subiram ao palco, tiraram selfies, pediram autógrafo, ansiosas por uma palavra e uma atenção, repetindo o que audiências fazem pelo mundo afora.

Deu para entender o porquê desse frisson todo. Ele conhecia o mundo todo mas lembrava com carinho a rua de sua infância. Trafegava pelo estratégico e pelo tático (e o tátil também). Lembrava com detalhes a solução que um motorista sugeriu para organizar a parada na “estação-tubo”, um dos símbolos das reformas de Curitiba.

O sistema curitibano chegou a influenciar mais de 200 cidades, que adotaram a mesma lógica de mobilidade implantada durante a gestão do ex-prefeito Jaime Lerner, nos anos 1970. Foto: Albari Rosa.O sistema curitibano chegou a influenciar mais de 200 cidades, que adotaram a mesma lógica de mobilidade implantada durante a gestão do ex-prefeito Jaime Lerner, nos anos 1970. Foto: Albari Rosa.

Elogiava a diversidade mas não se deslumbrava pelas palavras de ordem. Para ele, o uso misto era qualidade de vida. Sua solução de mobilidade urbana através dos ônibus em faixas exclusivas foi exportada para todo o mundo e tem gente que sai encantada com o que vê em Bogotá, sem saber que o modelo veio de Curitiba.

Acreditava na simplicidade, mas não abria mão da qualidade da execução. Nem da velocidade de execução. A obra tem que ser boa e tem que ser rápida. O modelo de expansão urbana acompanhando as linhas de transporte tem inspirado outros pelo mundo, inclusive no novo Plano Diretor de São Paulo.

Em 1972, a Prefeitura de Curitiba fez história ao implantar o primeiro calçadão do Brasil na região central, em plena Rua XV de Novembro. Foto: Prefeitura de Curitiba.Em 1972, a Prefeitura de Curitiba fez história ao implantar o primeiro calçadão do Brasil na região central, em plena Rua XV de Novembro. Foto: Prefeitura de Curitiba.

Transformou um conceito – a acupuntura urbana – em um poderoso modelo de transformação urbana. Ele entendia o valor do carro, mas advogava que a cidade boa é aquela que dá mais valor ao transporte público. E sustentava que o uso indiscriminado do carro estava com os dias contados. A Rua XV, em Curitiba, uma das primeiras, senão a primeira rua de pedestres do Brasil ainda hoje é um exemplo de vitalidade urbana. 

Participou da concepção do IPPUC - Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, um órgão que sobreviveu a inúmeras gestões municipais, com foco no ordenamento técnico da cidade. Ah, e também era um andarilho! Dizia que estava apenas esperando melhorar um pouco da perna para poder voltar a caminhar pelas cidades que visita.

O Jardim Botânico foi um dos parques construídos na gestão Lerner em Curitiba. Foto: Divulgação.O Jardim Botânico foi um dos parques construídos na gestão Lerner em Curitiba. Foto: Divulgação.

Talvez haja coisas que tenham mudado desde a época em que foi prefeito de Curitiba (3 vezes) e governador do Paraná (2 vezes), mas o encantamento com a vida urbana e a rua são inspirações poderosas para os arquitetos-urbanistas-engenheiros-gestores-candidatos de hoje. 

A “produção de cidades” não pode ser um ato mecânico. Sem paixão, as cidades são ruas, prédios e concreto. Com paixão, como a que Lerner professou e praticou, talvez abriguem vidas interessantes e plenas.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Mantém e edita o blog Caminhadas Urbanas.

No último dia 12 de maio (quarta-feira), Ruth de Souza completaria 100 anos e o Itaú Cultural celebra a data subindo material especial em seu site. Das memórias, traz destaques de sua história no teatro, cinema e televisão, onde foi de encontro às construções estereotipadas de personagens negros e criou gestuais e universos próprios para suas personagens. O material também revela ações que perpetuam e difundem, para novas gerações, a importância da atriz. Ainda, exibe duas cartas que marcam tempos: a primeira, entregue para ela, em 2019, pouco antes de sua morte. A segunda, escrita agora, será seguida de mais 99 que serão exibidas na próxima edição do festival.

O material abre com olhar biográfico sobre a trajetória de Ruth, destacando momentos marcantes e fundamentais da carreira da atriz, em um mergulho na sua importância e presença na cultura brasileira, que pode ser conferida no verbete sobre ela na Enciclopédia Itaú Cultural.

A influência da atriz sobre outros atores e gerações das artes cênicas também tem destaque nesta homenagem. O material traz uma entrevista com os artistas e produtores Ellen de Paula e Gabriel Cândido, idealizadores de Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo, evento anual criado em 2019, reunindo espetáculos teatrais, leituras encenadas e dramática, performances, contação de histórias, intervenção artística, show e conversas, entre outras ações. Um ano depois, com o início da pandemia, a programação ganhou edição online com cerca de 25 atividades gratuitas.

O formato da 3ª edição, ainda indefinido por conta da vacinação contra a covid-19 no país, seguirá com uma programação dedicada ao centenário junto a espetáculos, debates e atividades formativas.

 Ellen de Paula, Ruth de Souza e Gabriel Cândido no Rio de Janeiro em maio de 2019. Foto: Luzia Gondim. Ellen de Paula, Ruth de Souza e Gabriel Cândido no Rio de Janeiro em maio de 2019. Foto: Luzia Gondim.

Dessas duas pontas da história, o visitante do site do Itaú Cultural vai conhecer em primeira mão dois documentos históricos que reafirmam a importância de artistas referenciais como Ruth. O primeiro é a carta escrita por Ellen e Cândido e entregue para a atriz em 2019, contando a intenção de realização do festival Dona Ruth. O segundo é a primeira das 100 cartas que os dois reunirão para festejar os 100 anos de Ruth de Souza. A publicação desta carta marca o início da ação, que integrará o festival deste ano, previsto para acontecer no segundo semestre.

Ruth de Souza e Abdias Nascimento em ensaio de ‘Auto da Noiva’, de Rosário Fusco. Teatro Experimental do Negro (TEN). Rio de Janeiro, Teatro Fênix, 1946. Foto: Cedoc-Funarte.Ruth de Souza e Abdias Nascimento em ensaio de ‘Auto da Noiva’, de Rosário Fusco. Teatro Experimental do Negro (TEN). Rio de Janeiro, Teatro Fênix, 1946. Foto: Cedoc-Funarte.

Nascida no Rio de Janeiro, Ruth de Souza se encantou pelas artes cênicas ainda criança. A vivência no teatro teve início na década de 1940, com o Teatro Experimental do Negro (TEN), do escritor e dramaturgo Abdias Nascimento (1914-2011). Sua estreia nos palcos foi aos 24 anos, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com participação na peça O Imperador Jones. Anos mais tarde, começou sua trajetória no cinema. A carreira na televisão teve início nos anos 1950, com teleteatros, nas TVs Tupi e Record. Morou nos Estados Unidos, onde estudou e pesquisou as artes cênicas na American National Theater and Academy, na Karamu House e na Universidade de Harvard.

Sérgio Cardoso e Ruth de Souza em cena da telenovela "A Cabana do Pai Tomás" da TV Globo em 1969. Acervo pessoal / Ruth de Souza.Sérgio Cardoso e Ruth de Souza em cena da telenovela "A Cabana do Pai Tomás" da TV Globo em 1969. Acervo pessoal / Ruth de Souza.

Pioneira no teatro, cinema e televisão, em 1969 tornou-se a primeira protagonista negra de um folhetim televisivo, A Cabana do Pai Tomás. Sua longa trajetória profissional, com repercussão nacional e internacional, foi marcada, ainda, pelo posicionamento político que a fez contrariar as construções estereotipadas de personagens negros, criando gestuais e universos próprios para suas personagens. Ruth de Souza contribuiu com a reconfiguração do imaginário cultural brasileiro em relação à população negra.

Serviço:  

Comemoração ao centenário de Ruth de Souza
No site do Itaú Cultural: www.itaucultural.org.br
Mais informações sobre as ações do festival podem ser conferidas em: https://www.instagram.com/donaruth.ftnsp/?hl=pt

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Com informações Itaú Cultural.

German Lorca (auto-retrato, 1969 a esq.) e em foto de Vilma Slomp. Divulgação / Itaú Cultural.German Lorca (auto-retrato, 1969 a esq.) e em foto de Vilma Slomp. Divulgação / Itaú Cultural.

Morreu German Lorca, no último sábado (8), aos 98 anos, o último integrante do Foto Cine Clube Bandeirante, grupo de fotógrafos que atualizou a linguagem visual no país na década de 40. As fotografias de Lorca expressam de modo exemplar toda a experiência do período modernista e tem o mesmo frescor que o aproximam de algumas manifestações e de alguns procedimentos da arte contemporânea.

Ele faleceu de causas naturais em São Paulo, onde vivia. Lorca deixou filhos, netos e bisnetos. German Lorca nasceu um par de meses depois da Semana de Arte Moderna de 1922 e faria aniversário em 28 de maio.