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Em 2011, o rapper paulista Criolo lançava o disco Nó Na Orelha, que poderia ter sido o fim de sua carreira após mais de 20 anos de estrada, pois o dinheiro ganho com shows já não chegava para pagar as contas. O sucesso foi enorme. Quatro anos depois, Criolo faz a segunda turnê internacional de Convoque Seu Buda, seu terceiro álbum.

Preocupado com a situação do povo brasileiro, Criolo afirma que a redução da maioridade penal é apenas uma regulamentação do que já é feito: “Desde que eu me entendo por gente, vão para favela assassinar jovens”.

A forma peculiar de se expressar, recheada de metáforas, chegou a fazer um tradutor francês desistir de auxiliá-lo em uma entrevista quando passou por Paris. A Carta Capital, ele também fala sobre a polêmica participação na turnê Nivea Viva Tim Maia com Ivete Sangalo, a turnê europeia e sua trajetória pessoal.

Carta Capital: Como está o desgaste físico após tantas viagens de trem e avião na Europa?

Criolo: Ah, meu filho, para quem é acostumado a acordar quatro horas da manhã para procurar emprego, saindo lá do Grajaú para ir pra Santo Amaro ou pro centro, atravessar a Europa de trem carregando umas malas de roupa e equipamento musical é uma honra muito grande.

CC: Você já comentou que a situação do povo brasileiro vem melhorando lentamente. Como enxerga o momento político atual?

C: É revoltante, porque a proporção dessa melhora não está de acordo com o tanto que nosso povo luta. Os governantes ficam com o freio de mão puxado. Eles fazem questão de nos transformar em número e força para que a máquina se movimente. E, mesmo assim, eles puxam o freio de mão e vão usando da nossa energia quando acham que é importante.

CC: Qual é a sua opinião no debate sobre a redução da maioridade penal?

C: Já foi reduzido, só faltou colocar no papel. Desde que eu me entendo por gente, vão para favela assassinar jovens. Só estão regulamentando. Desde pequeno, a gente sabe: ‘ó, o muleque ali foi assassinado, meteram bala nele’. Seja pela força que representa o governo, seja pela mazela social ligada à desventura das coisas horríveis que são oferecidas a nossos jovens. Isso já foi taxado.

Para o rapper, atualmente em turnê pela Europa, redução da maioridade penal só 'coloca no papel' realidade vivida nas periferias.

A gente luta para que exista uma mudança de concepção. Porque não é só ensinar que um mais um é dois, que o Ceará fica no Nordeste e Porto Alegre fica no Sul, mas dar um ambiente de construção de texto, propício para que todo jovem brasileiro possa ter ambiente de discussão. Senão, não vai adiantar nada. A gente luta para que exista uma compreensão melhor de ser humano em nosso país.

CC: Você acredita que essa medida atinja em maior escala a população pobre?

C: Afeta todo mundo, porque ódio só gera ódio. Até agora, não vi ninguém querendo trabalhar com a causa, só querem trabalhar com efeito para ganhar ibope. É óbvio que existe uma guerra, não vamos virar as costas e fingir que não está acontecendo uma guerra civil no país. Mas o rap vem falando isso há mais de 40 anos no Brasil. E o pessoal vem falar disso agora?

Que bom que estão falando, não vou tirar ninguém. Opa, demorô, vamos falar, discutir, conversar. Se educação é comércio e saúde é comércio, você já vê por aí. O tanto que os caras roubam da gente todos os dias, era para todo mundo ter uma situação maravilhosa no Brasil, ninguém estar passando essa dificuldade toda. Eu nem diria dificuldade, passar dificuldade é uma coisa, você lida com isso. Passar por humilhação, aí é fogo.

CC: Você defende que a falta de diálogo é um de nossos maiores problemas. Esse quadro tem piorado?

C: Mas não só a falta de diálogo quando surge um tema. Uma falta de diálogo global, desde a concepção do ser, é necessário criar um ambiente que não seja só para passar a nossas crianças que um mais um é dois e questões de geografia. Mas esse perceber ser capaz de construir diálogo. Perceber-se construção de pensamento.

Não é só diálogo na hora que o bicho tá pegando, porque, na hora que a bala tá comendo, como você vai resolver? Vem falar para mim que uma poesia vai ser uma solução? E também é. A força da poesia é algo brutal. Mas, na hora que o bicho tá pegando, não adianta trazer flores. A verdade é muito dura. Tudo que está acontecendo já foi arquitetado, alguém imaginou que iria ser desse jeito e como se aproveitar da situação. 

CC: Agora, uma pergunta delicada...

C: Toda pergunta é delicada porque uma coisa é eu dar minha opinião para você que tá perguntando. Outra coisa é minha opinião estar no mundo e alguém escutar sem ter perguntado. Sua opinião só importa se alguém pergunta. É a premissa, né? É lógico que todo pensamento é interessante quando visitado, mesmo por acidente. Mas a premissa é que estou respondendo a você questões da tua mente. Então, toda questão é ou não delicada. Pode perguntar, meu filho.

CC: Parece um pouco complicado, dentro do rap, crescer no meio musical e alcançar novos públicos. Quando você topou o projeto com a Ivete, promovido pela Nivea, Viva Tim Maia, foi acusado por fãs do gênero de ter se vendido. Como viu essa situação?

C: Acho que conflito de ideias só faz a gente crescer. Acredito que as pessoas têm que ter liberdade para se expressar. Fui convidado para participar de um evento maravilhoso, que homenageia um cantor brasileiro. Você pensar um evento para um milhão de pessoas, tudo gratuito, alguém tinha que pagar essa conta. Uma empresa ‘X’ imaginou fazer esse grande festival – já é o quarto ano – e fui uma das pessoas convidadas.

Eu pensei bastante, pensei muito, sabe? Eu pensei muito se aceitava ou não. Mas, faltando quatro dias para eu dar a resposta, fui assistir ao documentário do Sabotage, no qual ele falava que o sonho dele era cantar com a Sandy. Que ele ama a voz da Sandy, acha ela um anjo, uma cantora maravilhosa. Aí eu falei: ‘Obrigado, meu amigo, por me ajudar a dar a resposta, por me ajudar a compreender um pouco mais que música é algo gigantesco’. Aí eu aceitei. Lógico que eu estou a um milhão de anos luz de distância do professor Sabotage. Tanto professor é que me deu essa aulinha a mais. Então, tá tudo certo.

CC: Outra polêmica levantada nesse projeto foram as críticas de Ed Motta, sobrinho de Tim, ao fato de você e Ivete terem sido escolhidos. Disse: 'Quem oferece é sem noção, é clima de empresa, mas quem aceita é pior ainda, é mau caráter com a história'. Como você lidou com isso?

C: Ele tem o direito de dar a opinião dele. É um grande cantor, uma personalidade do Brasil. Por que iria ter problema, se eu luto para que as pessoas tenham liberdade de expressão? Imagina. Eu venho do rap, cara. O rap nos ensina um monte de coisa, não é isso que magoa a gente, não. O que magoa é ver o povo passando fome. O cara dar a opinião de achar que meu nome não foi uma coisa feliz para estar em determinado projeto, em específico alguém da família dele, alguém que ele ama, ele tem todo o direito, gente. O que me preocupa é ver os caras roubando nosso povo, que sofre e é humilhado no Brasil e fora. Isso que me magoa. Porra, ele foi sincero e deu a opinião dele. Tá tudo certo, cara.

CC: Você pensa em descansar um pouco quando acabar a turnê?

C: Não tem esse papo de descanso, não. Não ligo pra isso, meu filho. A gente veio de uma realidade em que todo dia pedia a Deus, ou o nome daquilo que você acredita, para ter oportunidade na vida. Agora que tem, vai ficar reclamando? Sai fora, meu.

CC: Como é sua relação com a composição? Você tem o hábito de andar com bloco e caneta?

C: Já andei bastante. Agora, gravo tudo no celular. É mais fácil. Mas também, quando perde, perde tudo. Nem tudo aquilo que lhe traz praticidade é o melhor.

CC: Mas chegou a perder alguma canção escrita?

C: Já, claro. Muitas. São 28 anos escrevendo, você perde muita coisa. E muita coisa se perde dentro de você, também. Você não perdeu o papel, mas muita coisa se perde em você. Você vai visitar aquele texto que começou, em cinco, dez anos, é um sopro divino. A arte é algo muito especial, porque lembra que ainda somos seres vivos. Por isso, a arte é tão cultuada, misteriosa e valorizada. Porque lembra que existe um ser humano que ainda está vivo. Que não viramos totalmente máquina.

Por João Pedro Soares. 


Tudo começou em 2012. Para combater a ideia de que moradores e animais de rua são seres invisíveis, o fotógrafo Edu Leporo decidiu lançar mão de suas lentes. “Saí às ruas procurando fotografar e contar essas histórias cheias de amor, respeito e companheirismo'', conta ele.

Assim surgiu o projeto “Moradores de Rua e Seus Cães”, em São Paulo. As histórias e imagens são reunidas em um site: http://zip.net/bqrBsd 

Agora, Leporo quer publicar um livro com esse material. Para isso, lançou uma "vaquinha virtual". O objetivo é arrecadar R$ 43.485,00 até 26 de agosto. 

As doações começam em R$ 10, e quem quiser ajudar pode acessar o sitewww.startando.com.br/livromrsc


Maria Carolina Abe no Blog Pet Money

 


Um amigo que começou a correr e se livrou do estresse. Outro que perdeu peso e está muito mais disposto, cheio de energia. Relatos positivos de quem adota a corrida como atividade física regular não faltam. Você até já tentou, comprou um par de tênis e arriscou ir para a rua (ou esteira), mas logo perdeu o ânimo típico dos iniciantes. Além disso, "correr para lugar algum não faz muito sentido".

São inúmeras as desculpas de quem não consegue se livrar da vida sedentária. O joelho dói. É difícil sair mais cedo da cama. É impossível achar tempo na rotina apertada de trabalho. Já passei da idade de começar. Pois o médico oncologista Drauzio Varella derruba todas elas ao longo das 208 páginas de seu novo livro, "Correr - O Exercício, a Cidade e o Desafio da Maratona", o 13º de sua carreira de escritor.

Em tom mais de bate-papo com um amigo que descobriu há 20 anos o prazer de correr do que de médico prescrevendo saúde, Varella divide com o leitor a própria experiência. Ele decidiu correr sua primeira maratona quando já estava prestes a completar 50 anos. Cruzou com um ex-colega de escola, dele ouviu um "você está chegando à idade da decadência do homem" e resolveu provar a si mesmo que decadência era uma palavra que não cabia em seu estilo de vida.

"Quem consegue correr 42 quilômetros deve ser capaz de encarar o futuro com mais otimismo e sabedoria", ele escreve nas primeiras páginas do livro - e mostra, ao longo dele, quanto isso realmente tem de verdade. Menos de um ano mais tarde, em novembro de 1993, Varella estreava na distância, na Maratona de Nova York. A paixão foi instantânea - tanto que hoje, aos 72, ele já correu outras 19, incluindo a Maratona de Boston, a mais antiga e cobiçada do mundo por exigir tempo de qualificação do participante. "Parecia um sonho", conta o médico, que participou da prova no ano passado. 

Foram experiências tão especiais que Varella dedica uma das cinco partes em que o livro é dividido às suas maratonas mais marcantes. Para quem já pratica corrida, principalmente os também maratonistas, é o capítulo mais emocionante de "Correr". 

Quem já investiu meses de treinamento para cruzar a linha dos 42 quilômetros vai se identificar com cada gota de suor relatada pelo médico, cada dor na panturrilha, cada confissão da vontade de desistir, cada prazer de vencer o desafio. E provavelmente vai derramar algumas lágrimas quando ele descreve a sensação que teve ao correr em Chicago, em 2009, acompanhando a filha caçula, 32 anos mais jovem que ele, em sua estreia como maratonista. "Cruzamos a linha de mãos dadas, erguidas para o alto. Demos mais alguns passos e nos abraçamos. Se um pai disser que não chorou numa hora dessas, é desalmado ou mentiroso."

As outras quatro partes são dedicadas aos primeiros passos de Varella na corrida, à história da maratona, aos treinos inusitados que o médico já fez mundo afora - como em uma pequena ilha de areia no meio do Rio Negro, onde desde 1993 ele coordena um projeto de bioprospecção de plantas - e aos encontros e descobertas que aconteceram ao longo de duas décadas de rodagem pelas ruas de São Paulo, cidade onde Varella nasceu e cresceu. 

Entre os relatos, há blocos curtos batizados de "intervalos", nos quais o médico veste o jaleco branco e aborda questões de saúde relacionadas à corrida. Num deles, derruba com dados de pesquisas a tese (furada) de que os joelhos são destruídos no esforço dos 42 quilômetros (era essa a sua desculpa?). 

Ler Varella descrever sua rotina de trabalho e como, mesmo assim, ele consegue tempo para treinar - seja às 5 horas ou entre um e outro atendimento no hospital - é de deixar no mínimo envergonhado cada leitor que já usou a agenda apertada como desculpa para ficar parado. Além de oncologista, ele coordena o projeto no Rio Negro, para onde viaja regularmente, dá palestras, frequenta congressos internacionais, atende doentes em cadeias de São Paulo uma vez por semana, escreve uma coluna quinzenal em um jornal e outra a cada três semanas numa revista, publica livros, dirige um site com informações médicas, conduz séries educativas no "Fantástico", da TV Globo e ainda arruma tempo para, além de treinar, conviver com a família.

"Controlar a ansiedade gerada por tantas solicitações, o estresse de atendê-las numa cidade como São Paulo, e manter o preparo físico necessário para os deslocamentos e as viagens de vai e volta em 24 horas que sou obrigado a fazer exige disciplina, equilíbrio psicológico e uma paz de espírito que só descobri ao correr", explica. "Correr é experimentar a liberdade suprema, é voltar aos tempos de criança." Depois de ler "Correr", difícil, para o leitor, vai ser ficar parado. 


"Correr - O Exercício, a Cidade e o Desafio da Maratona". Drauzio Varella. Companhia das Letras 208 págs., R$ 29,90.

Por Ana Paula Alfano para o Valor.

 


Quinze anos depois de abandonar os gramados, Raí ainda torce por casa cheia. Mas se nos tempos de jogador ele queria ver as arquibancadas lotadas, o objetivo agora é encher o cinema . Desde outubro do ano passado, o ídolo da torcida do São Paulo é um dos donos do 
Cinesala, no bairro de Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista. 

Bicampeão da Libertadores, campeão mundial interclubes e titular da da seleção brasileira nas primeiras partidas da conquista da Copa de 1994, Raí tenta repetir o sucesso que conseguiu nos gramados para a nova atividade. Com filmes de autor, o Cinesala tem sido bem sucedido. Tanto que o ex-jogador e os três sócio planejam para o primeiro semestre do ano que vem a abertura de uma segunda sala, em outro ponto da cidade. Os detalhes ainda são mantidos em sigilo, mas uma característica do novo empreendimento é certa: o cinema será de rua. O plano do ex-jogador e seus parceiros é ter, no médio prazo, um total de três ou quatro espaços desse tipo espalhados por São Paulo.

Mais do que um negócio, o ex-craque trata o empreendimento como causa. Fazem parte de seus planos articular um movimento para unir os proprietários das salas de projeção instaladas fora de shopping em busca de melhorias na legislação para viabilizar o funcionamento dos espaços.

‑ É preciso dar visibilidade para a importância que um cinema pode ter para um bairro, essa coisa do encontro das pessoas, com valorização da qualidade de vida. Tem que ter alguns incentivos. São apenas seis ou sete salas em São Paulo hoje. Vamos levantar reivindicações para que esse modelo de cinema seja mais viável – afirma o ex-craque, que nos tempos de jogador, assim como o irmão Sócrates, se diferenciava dos colegas por se interessar por atividades culturais.

No Cinesala, o letreiro na entrada informa que o espaço funciona como “cinema de rua desde 1962”. Antes de Raí e seus sócios assumirem a administração do espaço, o local funcionava como sala patrocinada por empresas.Ao adquirirem o negócio, o ex-jogador e seus sócios promoveram uma reforma para dar ao prédio características originais da construção. Também foi instalada uma sorveteria. A ideia é reservar um espaço gastronômico para cada novo empreendimento. A a sala que será inaugurada no ano que vem deve ter uma hamburgueria.

A ideia de investir nos cinemas de rua ganhou forma em 2006, ano em que Raí passou em Londres para aprimorar o inglês. O ex-craque se impressionou com o Electric Cinema, no bairro de Notting Hill, perto da casa onde viveu no período sabático. O sócio do craque na empresa de gestão de imagem, Paulo Velasco, que já alimentava há anos a ideia de ter um cinema, foi para a capital inglesa conhecer o espaço.

- A gente pirou no conceito.O cinema é uma restauração e tem um bistrô anexo. Ficamos empolgados com o modelo de negócio, com a importância que o cinema tem para o bairro.

De volta ao país, Raí e Velasco passaram a trabalhar para implantação do cinema.

- Tivemos que adaptar o projeto à realidade brasileira. E também alguns lugares que tentamos negociar não deram certo. Por isso demorou.

Do Electric, o Cinesala copiou os sofás das primeiras fileiras, que permitem ao expectador assistir os filmes esparramado como se estivesse na sala de casa.

Para o ex-ídolo, a abertura do Cinesala acabou sendo impulsionada por uma mudança na relação do paulistano com a cidade, o que bate com a proposta do seu cinema.

- Depois de muito tempo, há uma valorização da rua, com as pessoas ocupando mais as praças e os parques. As pessoas estão se interessando mais pelo espaço público.

Apesar de se interessar por cinema desde jovem, a relação do craque com os filmes se estreitou durante os anos em que ele viveu em Paris para defender o Paris Saint-Germain. O grupo Canal Plus, principal produtor de filmes franceses, era dono do time na época e os jogadores acabavam sendo convidados para as pré-estreias.

- Os incetivos governamentais para os filmes franceses sempre me interessariam. O incetivo à manutenção das salas lá dão resultado.

Mesmo com o seu interesse por cinema, Raí confessa que não se intromete na programação de filmes que são exibidos no Cinesala. A tarefa fica a cargo de Adhemar Oliveira, diretor de programação do Espaço Itaú, outro sócio do ex-jogador no Cinesala.

Se fosse o caso de opinar, Raí nunca deixaria de exibir os filmes de Woody Allen, seu cineasta favorito. O brasileiro Walter Salles e o espanhol Pedro Almodóvar completam o grupo de preferência do ex-craque.

Os filmes preferidos de Raí:

"Magia ao Luar", de Woody Allen.
"Thelma e Louise", de Ridley Scott.
"Amelie Poulain", de Jean-Pierre Jeunet.
"O Filho da Noiva", de Juan José Campanella.
"O Segredo dos Seus Olhos", de Juan José Campanella.

Por Sérgio Roxo em O Globo.


Uma porta numa ruazinha estreita em Guaianazes, um dos bairros no extremo da Zona Leste de São Paulo. São oito e meia da manhã de um sábado: o Vinicius Rodrigues, 22, abriu sua barbearia mais cedo, a "Bom de Corte", a fim de fazer uma preza pra molecada que não tem grana pra cortar o cabelo. Fora do salão todo pintado de azul bebê, uma meninada, ansiosa, espera sentada nos pufes coloridos para dar um tapa no visual.

Essa é a primeira vez que ele chama uma rapaziada pra cortar de graça em seu próprio salão, mas, pelo menos uma vez por mês, ele e seu amigo Esdras Gomes, 19, colam em algum pico pra mandar ver nos cortes na faixa. Na lista, entram asilos, creches, albergues ou então alguma outra quebrada mais carente.

A pouca idade dos dois não condiz com o tanto de coisas que os moleques já realizaram ou planejam. O Vinicius entrou em contato com a profissão no ano passado quando fez um curso de cabeleireiro por quatro meses incentivado pelo seu pai, que já tinha o ponto de aluguel do salão. Lá, ele conheceu o Esdras – e a caminhada dos dois se mantém até hoje.

                 Gif: Guilherme Santana/VICE

O Vini conta que já tinha trampado como garçom, estoquista no Brás e num almoxarifado, mas que, apesar de nunca antes ter pensado na profissão atual, foi preciso só o primeiro curso pra ele se amarrar na parada. "Comprei a cadeira de cabeleireiro num ferro-velho por 50 reais, o espelho foi minha mãe que deu", se orgulha. O lugar é simples, mas tem tudo de que um salão e sua clientela precisam: "Nós somos modernos. Não tem revista no salão pros clientes lerem, mas tem wi-fi". O corte mais básico custa R$ 12; e, num dia bonzão, o Vinicius chega a aparar até 25 cabelos.

Daí que a carreira do cara tá sendo só ouro. Sempre pegando referências na internet das barbearias negras norte-americanas, ele quis se aperfeiçoar na arte dos cortes chavosos, com linhas e formas geométricas, que hoje são parte muito forte do estilo e da cultura das periferias de São Paulo. "Antes de a gente fazer esses cortes, ninguém fazia aqui [em Guaianazes]." E ele também conta que, de certo modo, acha que ditou moda: "A gente lança um corte na internet, e na semana seguinte já tem gente nas escolas com eles".

E não para por aí. Ele não só tem planos de fazer mais uma pá de cursos, como também dá aula pra uma galera de Itaquera toda terça sobre os cortes monstros que manja fazer. "Os cursos são caros, aí dá uma quebrada. Tem curso de um dia que custa R$ 300, mas, se não ficar atualizado, a gente fica pra trás."

No dia em que fomos sacar o "Bom de Corte" e conhecer a molecada que ia cortar o cabelo, eles colocaram as cadeiras e os apetrechos todos na rua, fazendo o trampo na garotada lá mesmo. Foi ao som de Racionais MC's que cada um teve seus fios milimetricamente desenhados. Em dois meninos, eles passaram um produto que chamaram de "desenrola nó" pra dar aquela alisada nas madeixas. Todo mundo saiu de lá feliz da vida; afinal, dar um xablau no cabelo melhora qualquer autoestima. "Vem gente até de outras quebradas cortar com a gente, a galera fica sabendo mesmo", relatou Vinicius.

A dupla conta que começou a fazer trabalho social depois que o Vini viu um vídeo na internet doPaulo Bronksdando um salve geral pros MCs, pedindo que eles fizessem doações pruma rapaziada carente. "Eu entrei em contato com ele e disse 'Olha, grana eu não tenho, mas posso cortar o cabelo de graça'."

Logo mais, os dois pretendem abrir um salão juntos, o "Barbeiros in Broken" (diga-se de passagem, melhor nome). A amizade é tanta que, por coincidência, eles vão ser pais com só alguns meses de diferença. E quem corta o cabelo deles? "Eu corto o dele, e ele corta o meu. A gente faz essa preza um pro outro", se divertem.

Larissa Zaidan na VICE

 


Quer uma boa leitura de graça? Basta procurar Giovanna Pampolin no Minhocão. 

Perdido num lugar distante de tudo, um homem se abriga na casa de uma família simpática e diferente. Essa gente tem um hábito esquisito: sair todas as noites para buscar o dia. Quando passa de novo por ali, o homem leva um presente que muda a rotina daquelas pessoas...”

Na infância, o fotógrafo Paulo Pampolin adorava esta história de Edy Lima, “A gente que ia buscar o dia”, contada pela mãe. O livro se perdeu, mas Pampolin guardou a fábula na cabeça e, a seu modo, passou a recontá-la para embalar os sonhos da filha Giovanna, hoje com 9 anos. Tal era a conexão entre pai e filha que Patrícia, atual mulher de Pampolin e madastra de Gigi, decidiu procurar um exemplar da obra nos sebos de São Paulo. Lima repousa atualmente nas estantes da família e é um dos raros livros aos quais a menina se apega. Os demais ela faz questão de compartilhar, depois de lidos, obviamente, com quem quiser. Quase todos os domingos ela e o pai oferecem literatura de graça aos pedestres do Minhocão, região central da capital paulista. 

A ideia de doar livros começou há pouco mais de seis meses. Dona de uma biblioteca invejável para a idade, Gigi se perguntou: por que não compartilhar com outros leitores? Encontro-a em uma manhã fria e cinzenta de inverno. O termômetro marca 13 graus, mas não a desanima. A menina empurra um carrinho repleto de obras de sua coleção rumo a um ponto do elevado, fechado aos carros no domingo. Entre artistas, ourives, ciclistas e turistas, ela monta sua pequena banca de exposição de tomos gratuitos.

Diante do empenho da filha, Pampolin criou no Facebook a página “A menina que doa livros”. Pela rede social, avisa quando estará ao lado de Gigi no Minhocão (as doações acontecem nos fins de semana que a menina passa com o pai), elenca os títulos disponíveis e aceita pedidos de encomendas. Giovanna lê todos os comentários, mas, por motivos de segurança, deixa as respostas a cargo do pai. “Em uma tarde, a página passou de 30 curtidas (seguidores) para mais de mil. Com isso comecei a juntar meus livros para doar também”, diz o fotógrafo.

Os adultos são a maioria dos frequentadores e também os mais desconfiados. Já perguntaram se havia câmeras escondidas ou se era pegadinha. Chegam tímidos, mas no fim sempre escolhem um título. Vários se comprometem a trazer seus livros para doar, embora poucos o façam de verdade.

O movimento varia e depende muito do clima. Nesse domingo frio e cinzento, Gigi doou apenas 5 dos 41 livros à disposição. Em dias mais ensolarados, relata a menina, não sobra nenhum exemplar. Eros, o cão da família, também é um bom garoto-propaganda. Quando ele vai junto, a visita aumenta. “O pessoal chega para brincar com ele e acaba pegando um livro”, conta a garota, ciente da empatia causada pelo animal.

Há quem peça para tirar fotos com a menina. Outros querem uma dedicatória no título escolhido, caso de Eliana Raposo, que passeava com o marido e aproveitou para dar uma olhada nas opções. Ela escolheu Trem-Bala, de Martha Medeiros, presente para a mãe. “Ela está querendo esse livro há tempos e encontrei aqui”, comemora Eliana. O marido, Wilson Rodrigues, até pensou em levar o poeta chileno Pablo Neruda, mas mudou de ideia e escolheu A Cidade dos Bichos, texto infantil de Arlette Piai. Dará a uma criança. Prova de que gentileza gera gentileza, como dizia o poeta carioca. 

Aos leitores Gigi e Pampolin só pedem um favor: a manutenção da corrente de doações. “O ideal é que o livro circule, não só troque de estante”, explica o fotógrafo. Para quem tem dificuldade em se livrar de seus livros (discos etc.), a menina aconselha: “Desapega”.

Pai e filho têm um trato. Gigi ganha livros quando quer. Outro tipo de presente só em datas muito especiais (aniversário, Dia das Crianças e Natal). Depois de sorver cada página, a menina coloca o exemplar na lista de doações. É o que acaba de fazer com O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry, clássico preferido das aspirantes a miss. Encomenda, aliás, de um frequentador da página no Facebook.

Apesar de leitora voraz, Gigi não abre mão de um momento de prazer: a leitura noturna feita pelo pai antes de ela dormir. A voz a conecta com sua mais tenra infância. Só não valem histórias tristes. 

Wanezza Soares em Carta Capital.