Caminhos - São Paulo São

São Paulo São Caminhos

Imagem: Informe “Controle da Velocidade“ / OMS.Imagem: Informe “Controle da Velocidade“ / OMS.

Se é verdade que o ritmo da vida urbana tem sido cada vez mais acelerado, é realidade também que isso causa uma série de problemas individuais e coletivos. O trânsito, submetido à aceleração de quem precisa se deslocar com rapidez, é desafiado a ser cada vez mais eficiente.

Porém, em todo o mundo, as cidades que são referência em mobilidade urbana têm diminuído a velocidade de suas vias. Como isso é possível? Por que gestores públicos e especialistas tomam essa decisão que parece ir na contramão da necessidade da população?

Conheça os benefícios de diminuir a velocidade nas principais vias urbanas e entenda a razão de o mundo aderir agora a esse fenômeno.

1. Menos mortes no trânsito

O limite dos 40 km/h cobre 90% das ruas de NYC. Foto: Getty Images.O limite dos 40 km/h cobre 90% das ruas de NYC. Foto: Getty Images.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os acidentes de trânsito são a primeira causa de morte entre 15 e 29 anos, sobretudo entre homens, que respondem por 80% desse contingente. O Brasil ocupa a quinta posição no ranking mundial de mortes em acidentes de trânsito.

Por essa razão, o principal e mais procurado benefício na diminuição da velocidade máxima das vias urbanas é a queda na letalidade desses acidentes. Aliás, cada vez mais o setor especializado traz o termo “sinistros”, em vez de acidentes, pois considera-se que eles poderiam ser evitados na maior parte dos casos.

A velocidade está entre os fatores que, quando bem observados, reduzem significativamente as mortes no trânsito. Segundo o Instituto WRI Brasil, a 30 quilômetros por hora, a chance de um sinistro ser fatal é de 10%. A 40 km/h, o índice é de 30%. Já a 50 km/h, a chance de óbito cresce para 85%. 

2. Menos pessoas lesionadas

O Brasil é o quinto país com mais mortes no trânsito do mundo. Foto: Alf Ribeiro / Shutterstock.O Brasil é o quinto país com mais mortes no trânsito do mundo. Foto: Alf Ribeiro / Shutterstock.

Porém, mesmo nos casos em que pedestres e ciclistas sobrevivem, é comum haver lesões graves temporárias ou permanentes. Isso pode comprometer de forma severa a pessoa atropelada de diversas formas: cognitiva, motora e até mesmo financeira. 

Nesse sentido, os cofres públicos também são afetados, seja no socorro e reabilitação, seja com apoio previdenciário. Segundo a Secretaria de Previdência do Governo Federal, o custo total dos acidentes de trânsito para a sociedade representa 5% do PIB, o que soma aproximadamente R$ 295 bilhões.

3. Menos poluição

A cidade de Milão anunciou plano ambicioso para reduzir o uso de carros após a pandemia. Foto: Stefano De Grandis/REX/Shutterstock.A cidade de Milão anunciou plano ambicioso para reduzir o uso de carros após a pandemia. Foto: Stefano De Grandis/REX/Shutterstock.

Há boas razões para acelerar menos. Quanto mais se acelera, mais o motor precisa trabalhar e, portanto, mais combustível é queimado.

Além da poluição do ar, que está entre os principais problemas de saúde vividos nos centros urbanos, a poluição sonora também deve ser considerada. Dor de cabeça e estresse estão entre os problemas mais diretamente ligados ao acúmulo de sons, que são causados, em parte, pela aceleração dos veículos.

4. Mais acessibilidade urbana

Rua com proteção a pedestres na Cidade do México. Foto: WRI.Rua com proteção a pedestres na Cidade do México. Foto: WRI.

Outro fator importante que motiva as cidades a diminuir a velocidade máxima das vias é a acessibilidade de quem é mais frágil. Idosos e crianças são exemplos de pessoas diretamente beneficiadas, que ganham um motivo a mais para saírem de casa com mais frequência.

O sistema de Visão Zero no trânsito, preconizado pela Organização das Nações Unidas e liderado pela Suécia, defende que os erros humanos devem ser considerados. Uma criança correr para o meio da rua ou um motorista se distrair por um segundo são incidentes comuns, portanto precisam ser considerados. E, quanto maior a velocidade, maior a chance de um desfecho trágico.

5. Mais ciclistas na rua

Em Roma as “Ilhas ambientais”, tem limite restrito a 30km/h. Foto: Metronews.Em Roma as “Ilhas ambientais”, tem limite restrito a 30km/h. Foto: Metronews.

Outro benefício de ter carros mais lentos é a segurança dos ciclistas. Essa pode ser a diferença entre se optar ou não por esse modal de transporte, que é mais econômico, sustentável e saudável. 

Portanto, motivos não faltam para andar em velocidade moderada, e diminuir a velocidade é apenas o primeiro passo. A ideia final é deixar o carro na garagem e caminhar, pedalar ou usar modais coletivos.

Leia também: 

***
Fonte: WRI Brasil.

O transporte público foi a modalidade que mais sofreu impacto e teve redução global de 5,6% em volume de viagens. Foto: Alexanderstock23 / Shutterstock.O transporte público foi a modalidade que mais sofreu impacto e teve redução global de 5,6% em volume de viagens. Foto: Alexanderstock23 / Shutterstock.

Novo estudo realizado pela Kantar - empresa especializada em pesquisas, identificação de tendências e comportamento de consumo - mostra que o fator pandemia alterou também a mobilidade urbana, sobretudo nas grandes cidades. Segundo o estudo Mobility Futures 2021: 'The Next Normal', o volume de viagens para trabalho, lazer ou para chegar a alguma instituição de ensino caiu 30% entre 2019 e 2020 globalmente. Em São Paulo, as viagens em geral foram reduzidas em 29% e os deslocamentos por conta de trabalho em 32%, mesmo número de Munique, na Alemanha. O transporte público foi a modalidade que mais sofreu impacto e teve redução global de 5,6% em volume de viagens.

A necessidade de trabalhar e, em alguns casos, estudar remotamente é a maior responsável pelas mudanças de mobilidade. Entre as 9,5 mil pessoas entrevistadas em 13 capitais em fevereiro deste ano, 65% trabalham em regime home office e metade pretende continuar nesta dinâmica mesmo com a possibilidade de voltar aos escritórios em curto e médio prazos.

 Pequim, na China, e Berlim e Munique, na Alemanha, são as cidades com menor número de pessoas trabalhando em casa. Foto: Forbes. Pequim, na China, e Berlim e Munique, na Alemanha, são as cidades com menor número de pessoas trabalhando em casa. Foto: Forbes.Em São Paulo, 69% têm a chance de trabalhar em seus lares, terceiro maior número das capitais avaliadas, e 52% planejam continuar assim. Mumbai, na Índia, é a cidade com porcentagem mais alta de profissionais trabalhando de casa (84%), seguida de Nova York (EUA) (70%). Nesses locais, 57% e 46% da população, respectivamente, planejam continuar neste regime no futuro. Pequim, na China, e Berlim e Munique, na Alemanha, são as cidades com menor número de pessoas trabalhando em casa: 45%, 56% e 59%, respectivamente.

O Mobility Futures 2021 responde às questões essenciais de mobilidade:

  • Como o comportamento de viagens e o trabalho remoto transformarão o futuro da mobilidade?
  • O que é necessário para o transporte público se recuperar?
  • As motivações positivas em torno do meio ambiente permanecerão?
  • Ou, com mais pessoas dirigindo sozinhas, haverá uma ressaca ambiental?
  • O que acontecerá com o "car-sharing", "car-pooling" e a carona de saudação?
  • Como tudo isso impactará as infraestruturas da cidade?

Muda o tipo de transporte

Ao todo, o estudo avaliou as tendências de mobilidade urbana em 13 cidades. Foto: Kantar / Divulgação.Ao todo, o estudo avaliou as tendências de mobilidade urbana em 13 cidades. Foto: Kantar / Divulgação.Em virtude dessas mudanças na rotina, o relatório aponta o crescimento do uso de meios de transporte saudáveis e sustentáveis. Caminhar lidera o ranking das modalidades que mais ganhou popularidade com a pandemia em todas as capitais e, junto das opções como bicicletas e patinetes, cresceu 3%. Na Europa, este número é ainda maior: 4,8%. Os Estados Unidos registram o menor impacto de meios de transporte saudáveis, com incremento de apenas 0.6%.

Outra tendência apontada pelo estudo é uma maior adesão ao "localismo", ou seja, pessoas que escolhem se deslocar distâncias mais curtas usando meios saudáveis. Em média, 15 minutos do raio de suas casas são suficientes para realizar atividades básicas, como compras de mercado, por exemplo.

Paralelamente o maior desafio em relação à mobilidade é o aumento da preferência ao uso de carros e as cidades precisam se atentar à infraestrutura, seja no controle de tráfego intenso ou quanto à emissão de poluentes. As medidas restritivas de distanciamento social e risco de contágio estão no centro desta motivação. Mas, as longas distâncias e uma cultura que tem o carro como principal meio de transporte também têm seu papel.

Globalmente, a escolha do carro para fazer as viagens diárias cresceu 3,8%, ao mesmo tempo em que as iniciativas de compartilhamento de veículos, que vinham subindo gradativamente nos últimos anos, diminuíram 2,2%.

O maior desafio em relação à mobilidade é o aumento da preferência ao uso de carros. Foto: Getty Images.O maior desafio em relação à mobilidade é o aumento da preferência ao uso de carros. Foto: Getty Images.Na Europa, o uso do carro, geralmente levando apenas o motorista, aumentou 10% e a busca por transporte compartilhado caiu 14%. No entanto, mesmo com os veículos particulares sendo eleitos mais vezes, a intenção de comprar um novo caiu de 29% para 25% devido à reavaliação dos gastos das famílias. Por outro lado, aumentou o número de pessoas que planejam adquirir um bem elétrico.

Ao todo, o estudo avaliou as tendências de mobilidade urbana em 13 cidades: Berlim, Pequim, Mumbai, Bruxelas, Chicago, Copenhague, Londres, Madri, Milão, Munique, Nova York, Paris e São Paulo.

Você pode fazer o download do estudo aqui

***
Fonte: Pan Rotas.

Em 2020 e adentrando 2021, agências de transporte, empresas e sociedade civil agiram rápido diante da crise de saúde pública e das rupturas sem precedentes causadas pela Covid-19 globalmente. Esses grupos ofereceram soluções que ajudaram a manter em movimento os trabalhadores da linha de frente, mercados, serviços de saúde e outras necessidades essenciais. O que surpreendeu muitos especialistas foi não apenas a velocidade com que essas respostas foram mobilizadas em todo o mundo, mas também o quão eficazes foram e a criatividade visível em cada esforço, desde a realocação do espaço viário até a construção de infraestruturas emergenciais ou temporárias para pedestres e ciclistas.

Autores como Jane Jacobs e William H. Whyte lançaram, na década de 1960, noções que se tornaram bases para a construção do placemaking enquanto conceito. Foto: Catalytic Action.Autores como Jane Jacobs e William H. Whyte lançaram, na década de 1960, noções que se tornaram bases para a construção do placemaking enquanto conceito. Foto: Catalytic Action.

Apesar de muitas vezes serem utilizados como sinônimos, espaço e lugar podem assumir definições diferentes a depender do contexto em que são utilizados. Nesse sentido, o placemaking demonstra que a criação de lugares vai muito além da sua concepção física, envolvendo parâmetros como sociabilidade, usos, atividades, acessos, conexões, conforto e imagem de forma a criar vínculos entre as pessoas e o que então será entendido como lugar.

A pesquisa Acesso aos Espaços Públicos na Pandemia foi realizada em duas fases durante a pandemia, maio e outubro de 2020. Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil.A pesquisa Acesso aos Espaços Públicos na Pandemia foi realizada em duas fases durante a pandemia, maio e outubro de 2020. Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil.

A resiliência urbana foi posta em cheque com a chegada da pandemia de forma acelerada e drástica nas cidades. A limitação de deslocamentos, contatos e acesso aos espaços públicos foi a estratégia mais eficaz de contenção do vírus. Mas a estrutura da cidade, somada à falta de políticas públicas emergenciais, revelou-se nada resiliente quando grande parcela da população teve que continuar percorrendo longos trajetos em transporte público para trabalhar em serviços essenciais, e também quando a saúde mental e física da população foi afetada pela falta de acesso a locais que possibilitassem a prática de exercício físico em segurança, evidenciando a precariedade de oferta desses espaços na cidade.